As pessoas buscam poetas em bibliotecas com cheiro de passado, buscam sentido em palavras que nada representam. Tu não percebes? O cheiro de terra molhada, do livro velho, da roupa de cama, de chuva pingando lá fora e daquela comida gostosa dos domingos também é o cheiro da poesia. Somos poetas do nosso próprio destino e escrevemos com nosso olhar e com nossos sorrisos. Quando se é um escritor de sonhos não se tem medo do escuro, porque tudo pode virar melodia. A insônia é só mais um momento para pensar e as lágrimas transbordam o que queremos dizer. A poesia sem rima e sem sentido se chama vida. Nela não precisamos de fábulas falsas ou personagens inventados. O sorriso é o desenho mais belo que possa existir e o tempo parece parar quando o desenhamos, e os sorrisos são as poesias expressas. Poesia tem um pouco de loucura, sim. Tem um pouco de nossos devaneios e sonhos, tem um pouco do que guardamos só para a gente. As estrofes são quase baús, onde se escondem nossos segredos e os versos poderiam ser recitados para o resto da eternidade. O mais belo poeta não é o que mais vendeu livros ou o que mais arrancou suspiros de apaixonados. Os mais belos poetas somos nós, que a cada pingo de chuva e a cada raio do Sol sabe que a poesia está escrita em todos os lugares. Ela se escreve junto com o tempo, algumas tentamos grifar e marcar para tê-la para sempre, outras queremos arrancar as páginas e começar tudo outra vez. Poesia é o começo do recomeço e é o curativo para nossas feridas. Poesia são nossas memórias trancafiadas em uma prisão onde o esquecimento não entra. Vamos nos embriagar de poesias?
Esta escritura abaixo é da prodígia escritora paulistana Mariana Aguiar Cunha de apenas onze anos de idade que tem suas origens germinadas nas barrancas do rio Muganga - defronte do Pico Sanharol. Minas!
Mariana Aguiar & Beatriz Cordeiro
A DIMENSÃO DO AMOR
A Lua vivia em harmonia constante com o Sol e também com a Terra. Os três tinham um chamego. A Lua tinha uma linda pele lisa sem nenhum buraco. A Terra: água e mata elegante. E o Sol: brilho insaciável e verde. Até que um dia a fofoca rolou solta:
“Sol, me contaram um segredo escuro e sombrio da lua.”
“Mas que segredo é esse?”
“Dizem que ela não tem coração, pois deu seu grande amor, por isso é sempre grossa e gelada”
“Mas como assim? Isso é impossível Terra, nunca ela esconderia isso da gente!”
“Espera, não terminei, como a Lua alimentava-se de um amor não correspondido, esta, jogou o seu coração na imensidão do universo.”
A Terra nada entendeu. Viu o Sol magoado e triste dizer:
“Precisamos encontrar esse coração, não podemos deixá-la assim, fria e calculista.”
O sol e a Terra atravessaram muito além da fronteira do universo para acertar o coração. Mas antes de partirem, para não deixar a Lua desconfiada de suas ausências, estes, para ficarem em seus postos funcionais contrataram astros dublês de tonalidades mais vivas. O Sol foi substituído por uma estrela mais brilhosa, bem mais amarelecida; a Terra, por um planeta mais verde-azul... Mas a Lua de boba não tinha nada, ressabiada, perguntou:
“Por que você está tão amarelo hoje, Sol?”
“Hum, hum, simplesmente, eu pintei meus raios num colorido mais extravagante-envaidecido.”
“E você Terra, tem quantos habitantes?”
“Eu, eu tenho cinco bilhões...”
”Mas não era seis?”
“Não, morreram muita gente com a crise econômica. Sabe, por money...”
A Lua os enchia de perguntas, sentia algo estranho, mas, por ela ser um astro de personalidade emburrada e fria, jamais poderia questionar a estranheza de seus amigos. O Sol e a Terra estavam dando o troco: pensava a Lua...
Sol e Terra começaram a remexer mundos doutros mundos para achar o coração jogado pela amiga Lua.
“Como iremos encontrar esse coração se o universo é imenso, Sol?!”
“Deeer, Existe Global Positioning System.”
“Quê?”
“GPS.”
“Ok.”
“Mas tentativa vã. Sem sinal. Já vejo por esses dados... Isso não existe. Inviável!”
“Vamos ter que ir de universo a universo, vida a vida, mundos e fundos”
“Não é melhor desistir?!”
“Lembra, a Lua nos ensinou uma coisa - nunca desistir - aconteça o que for, Sol.”
“Obrigado pelo conselho.”
“Agora vamos em busca do coração perdido.”
Viajaram, investigaram, descobriram, passaram por cada buraco de minhoca, cada cratera, e nada de coração aparecer.
“Desisto! Deixe-a assim mesmo, fria e calculista!”
Não acreditando na palavra vinda da Terra, o Sol exclamou:
“Mas como assim? Não foi você que me deu conselhos amigos?!”
“Mas vejo que isso é impossível!”
“Não existe a palavra impossível, somente pessoas arrogantes para dizer.”
“Está insinuando que eu sou arrogante?!”
“Não, não estou dizendo!”
Os dois brigavam feito cão e gato ou gato e rato, até que um ruído foi ouvido. Um buraco negro se abriu sugando os dois, logo após de sugá-los fechou-se.
“Olha o que você fez! Sua...”
“Olha para frente.”
“Não, sua... Mas o quê é isso?!”
“A arca da vida”
“Não, Isto é muito menor”
A Terra como era curiosa se aproximou e disse:
“Impossível!”
“A única coisa impossível é a impossibilidade.”
“Ora ora, pare com isso, agora não é hora de...”
O Sol deu dois passos adiante para observar também. Era possível ver admiração minar nos olhos dos dois astros buscadores de coração jogado. Abismados e surpresos eles entreolharam-se num doce e único ar de felicidade misturado de incerteza.
“Será que achamos o tão esperado coração?!”
“Não sei, é gelado, frio e preto, este não seria o coração da nossa amiga Lua...?”
“É, talvez não seja, mas é melhor levarmos por precaução, Terra.”
“Sol, que tal pegarmos tudo vermelho, com ligamentos e viscosos, aí vai que um desses é o coração dela? Ela ia ficar tão feliz e tão feliz!”
“Boa ideia, Terra!”
“Terra, agora eu sei o quanto estamos distantes de nossas origens: além desse ser escuro abissal, sombrio e medonho, não tem nada não, só tralha velha...”
“É.”
A Terra e o Sol procuraram todos os objetos vermelhos, com ligamentos e viscosos. No total deu sete, porém, sentiam algo estranho, uma coisa que parecia ser ruim... Quando de repente a Terra falou:
“Pára Sol, com esse seu raio verde inútil na minha cara, as pessoas vão começar a reclamar comigo e mandarão foguetes para ver o que aconteceu, se nós saímos de órbita ou coisa assim. E, além disso, temos que voltar logo, já são 04h30min, já pensou: Extra, extra! Noite sem Lua! Não dá, desgruda ou desapareça, estou suando, já, já vai chover fedido em toda a Terra, por causa do meu suor!”
“A culpa não é minha se você fede a porca com dor de barriga!”
“Você falou o quê! Pelo menos eu não vou explodir um dia, morrer de tanto engordar e matar as pessoas com sua explosão besta. Se eu fosse explodir, pelo menos mudaria de lugar para não machucar ninguém!”
Depois dessa frase o Sol ficou pensativo, mas a briga continuou... De repente, de regresso, eles apareceram no universo de novo... Andaram e andaram até o nosso sistema solar. A Lua ouviu a briga e reconheceu as vozes dos amigos chegantes. Logo após isso, ela esbravejou para os dublês postiços contratados:
“Sumam daqui, eu já saquei tudo!”
“Mas, Lua...”
“Sumaaaaaaaaaaaam!”
“Está bem!”
Quando o Sol e a Terra regressaram ficaram envergonhados por sentirem minuciosamente observados pela tamanha frieza e decepção lunar. Logo, a Lua disse:
“Porque vocês precisavam ouvir uma fofoca tão imbecil? Porque não perguntar para mim? Isso acontece com todos os meus amigos: Primeiro, veio a terra de fogo, depois, a do gelo, o sol violeta, o sol azul, agora, vocês dois!”
“Orgulhe-se, porque, eu, a Terra, trouxe seu coração de volta.”
Antes que o sol pudesse falar, a Lua, mais calma, agradeceu e disse:
“Obrigado por você Terra ter pegado meu coração, mas...”
“Mas nada, sem questionamentos, coloco ele aqui, no lado esquerdo do seu peito!”
“Ai Terra, você é um amor! É por isso que, dos amigos, a melhor, mas...”
“Obrigada por - dos amigos, a melhor! -”
Um longo papo meloso ocorreu, mas quando Lua ia contar a historia notaram que o Sol havia ido embora, deixando um bilhete: “Queridas amigas, sei eu estava atrapalhando a amizades de vocês duas, então, parti, não deu tempo para eu dize-lhes um fervoroso adeus, pois vocês estavam conversando carinhosamente. Eu fui e levo um conselho de uma grande amiga que diz estas palavras: se eu fosse explodir, pelo menos mudaria de lugar para não machucar ninguém. Pensei muito neste recado ao longo do caminho. e achei melhor ir embora mesmo, além desse dito, eu fui porque não estava me entendendo com essa minha amiga do conselho, a Terra, mas um dia voltarei trazendo lembranças para minhas duas melhores amigas. Sei que o desentendimento vai passar. Deixo lembranças, muito amor e muito carinho. Virei não fisicamente, mas sim, em alma. Eu, eu iria contar, mas, foi tanta coisa que aconteceu simultaneamente, não deu: irei morrer e explodir nesta noite, pois o meu coração está aceleradíssimo, muito rápido. Nunca me esquecerei destes nomes: Lua e Terra... Para sempre amarei vocês... Do seu amado Sol... Ah, quase ia me esquecendo, aquela Estrela Amarela que ficou no meu posto enquanto fui procurar o coração jogado terá o meu nome e irá me substituir. Um beijo e, e adeus!”
Com lagrimas caindo, a Terra disse:
“Foi por minha causa!”
“Não, foi por causa do meu coração jogado, eu não queria que vocês o pegassem, ele causa brigas e desentendimentos. Não sei se o Sol falou mesmo a verdade, se vai explodir ou não, mas como o nosso sistema solar é muito grande, com certeza, andando, ele vai demorar muito sair de nossa Via - Látea, portanto, os planetas, os astros e as estrelas de moradias longínquas nos contarão se caso o nosso astro-rei explodisse ainda hoje. Não, ele não iria muito longe, não.”
“Por favor, explica-me melhor sobre o seu coração jogado às traças!”
“Na real, o longo da história é bem assim: todos os tipos de terra e sol descobriam o meu coração no oco do universo e iam buscá-lo, mas sempre causavam brigas, discussões. Muitos nem conseguiam voltar do Vazio. Esse é o motivo de eu não ter contado nada! Meus pais esconderam meu coração quando eu era pequena, já que no meu futuro ele iria causar briga, destruição e inveja. Essa foi a melhor escolha. É por isso que sou assim, fria e grossa, pois não posso amar! O meu coração é um grande causador de intrigas...!
“Lua, eu sei que você é capaz de amar sim! Você é possuidora de dois corações - o que foi separado de você desde pequena e o fictício que fica na sua mente, dentro de você. Você será amada, portanto, capaz de ter e sentir amor!”
Emocionada com as palavras da amiga, a Lua deu um grito e falou:
“I Love You Forever Sol and You Too Terra”
De longe, o Sol ouviu as palavras da amiga e falou mentalmente:
“Amo-te, para todo o sempre, achei que não era correspondido, todavia, você é o amor da minha vida...”
Aquele era um amor tão correspondido, tão profundo, tão real, tão justo, que o pensamento foi bem no miolo da mente da amiga Lua. Uma comunicação telepática.
“Terra, eu falei com o sol através da mente e ele disse que me ama!”
“Diga para ele que ele é o meu melhor amigo também!”
“Está bem!”
A Terra tentou, tentou e tentou, mas não consegui comunica-se com o seu amado, e por isso, mentalmente, de tristeza, explodiu junto com ele. Só mentalmente... O impacto causou apenas buracos que logo foram batizados de crateras. Fisicamente, o Sol explodiu e nunca mais foi visto. Na Terra, deixou tão-somente uma fagulha de saudade em forma de aurora boreal. Assim, a Terra, sempre pela fresta da esperança o observa com mais admiração e com muito amor amigo.
A Lua deixou de ser fria e calculista, e enfiou isso em seu coração: amor e paz em primeiro lugar. A Terra deixou de acreditar em fofocas e de discutir com qualquer objeto, coisa ou ser. Afinal, ela já estava ardentemente apaixonada por uma outra Estrela de Infinito Amor. Mas já tendo como certas outras tantas barreiras impedindo eles de ficar juntos. Bem, mas isso já é dimensão de uma outra história bem mais comprida... Cumprida?! Não sei...
“Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Onde o sol seja bem quente
Porque se plantar no molhado
Quando crescer mata a gente.”
Antônio Pereira
“Vivíssimo, estudei o poeta Antônio Pereira
Ferrenhamente, pus em prática parte da receita,
Derreti a semente numa caldeira incandescente
E pra não produzir sentimento de duvidosa suspeita
Num Saara qualquer plantei-a numa fundura medonha,
Portanto, leitores, da saudade, nenhuma colheita.”
Damião Cordeiro, o Poeta do Acaso. posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:23 PM
Numa grande arena mercante
Um camelô que jamais negociou camelo
Bradava aos quatro ventos: “um é três, e dois é cinco;
um é três, e dois é cinco, quem vai levar?!”
Isso soava seco feito tropel em cascos burregos no ladrilho do salão.
Eu, um bichinho miucheco, bípede
Sonhava ser centopéia para correr o mundo das exatidões.
Valha-me Deus, olha ele de novo: “um é três, e dois é cinco; um é três, e dois é cinco, quem vai levar” esta dúvida?!
Centopéia tem mesmo cem pés?!
02/12/2011 às 23 h 27 Sampa... posted by DÉLIO PINHEIRO at 9:13 AM
Certa vez aqui nessa paragem, enquanto uma dondoca cuidava do alheio sorrateiramente em surdina noturna, exaustivamente, em vão, o canino tentava inutilmente esmiuçar em detalhes as semânticas opostas numa só palavra.
Era alta madrugada, devidamente, o cão foi amordaçado e devidamente detido por alastrar insônia e revolta nas classes chamadas de alta e baixa dos bairros Santa Cruz e Floresta, respectivamente, deste nosso torrão natal. (Não quero aqui ser preconceituoso e nem tampouco desfraldar bandeira de uma simpatia socialista, mas defendo que a nossa cidade deveria ter uma só camada social. Igualitária. Talvez seja uma forte utopia deste que sonha vê-la assim: tão garbosa em integridade. Pode ser que a separação social esteja agasalhada dentro de cada um de nós. Isso depende de nossa formação e informação de nós para com o mundo. Vice-versa). Voltando à agulha do bordamento do causo para não perder a linha do raciocínio pispiado digo que apesar de tamanha balbúrdia sócio-gramatical, ninguém perdeu a classe. Nem mesmo o cão de boca anulada. Esse pôs-se a desenhar embaraçosas mímicas ilegíveis. Até hoje em dia o coitado não se cansa de tanto querer explicar significados bem distintos de uma maldita palavra: LADRA.
MANGAR
Nunca deve fazer isso. É doloso. É azedamente dissaboroso e doloroso quando o mangado é chacoteado e chicoteado pelos fiapos de uma criação plana, não prismática. Como é também quasimodamente imperfeito fosco torto tosco mangar de homônimas perfeitas, uniformes, fardadas assim tão iguaizinhas pastando no mesmo campo lexical. Criador amigo é aconselhável que arregace as mangas, que tenha força verbal contundente, que chupe os bons fluidos da vereda do bem escrevinhar que dê um soco intencional nas bochechas das criações insossas, sonsas, despropositadas...
Sei que crio sem causar estranhamento poético, mas me sinto livre sem a presença da fortuna crítica literária ferrenha, judiosa. Isso é de uma frutice de adocicado frescor semeado e colhido do pé, do po-mar e da cabeça deste navegante buscador que desprovido de agulha de mariar ora encontro-me à deriva num barrento turbilhão oceânico de vocábulos sem qualquer grau de parentesco gráfico entre si, ora perco-me claramente encalhado-ilhado como aqui agora nesta cristalina gotícula mono-morfológica, porém, semanticamente pluralizada. MANGA: de capim
de camisa
de chuva.
Fruta.
Oh! Sem caçoadas, hein...!
Damião Cordeiro – o Poeta do Acaso. poetaduacaso@yahoo.com.br
Vocabularium
Agulha de mariar = bússola
Manga de chuva = chuva esparsa, pancada de chuva aqui, acolá...
Sei que atracastes num porto seguro,
Portanto, já não podes dá ouvidos aos gemidos de dor
Deste teu poeta no alto desa-mar - Um turbilhão de tubarões e de solidões!
O amor não tem um protótipo, estanque,
Ele é todo chitado de nuanças/vicissitudes!
Amittavit magnam feminam (Perdi Uma Grande Mulher)
“...Devia ter amado mais. Devia ter arriscado mais...
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
À cada um cabe alegria e a tristeza que vier...”
Tam! Bateu solidão! Tam! Bateu desilusão!
Molhado, o rosto ninguém segura um grande amor escorregadio.
Em meu peito, aquela chama!
Coração-caixa-roxa: amores, dissabores, desencantamentos...
O combustível não esgota: amor, amores....
Coração caixa-roxa registra ardente chama. Ninguém atende!
Ninguém apaga! O meu coração tem muitas ranhuras, não agarra ninguém!
A vitae est pulchra, sed cordis nom comanda nada!
A vida é bela, mas o coração não comanda nada!
“A radioatividade leva até você...”
Os faróis do amor ainda continuam acessos, altos. “Coração mole...” No rádio Esperança uma canção: “Tem a pureza das águas claras ao nascer da serra...” Oh! Linda Bela radiouvinte da distante e pacata cidade de Miracema do Norte, sou teu Arlindo Orlando, volte volte para os braços teus... Mas a rádio Desolação toca a nossa não-poesia: “...Sei que seu coração tem outro/Não existe lugar mais para mim/Perdi a razão da vida porque/Seus carinhos para sempre eu perdi/O meu sonho de amor morreu/Quando no seu coração eu morri...”
Não é de meu assentimento, sed amittavit magnam feminam. Que esta missiva que leio agora às cinco mil caixas sonoras não proporcione mal-estar tampouco mal-entendidos. Floreio esta missiva com fragmentos do extraordinário poeta Rainer Maria Rilke. Fragmentos brilhantes estes que abraçam todo o universo das poeticidades. “Os filósofos e os poetas são felizmente dotados de uma sensibilidade e de uma inteligência mais apuradas. Sertânica ou erudita. “Não é difícil um bom poeta ser também um filósofo”. Lógico que não chego a tanto e serei um homem sempre inacabado, mas em metáforas e subjetividades vou me lapidando entre Apolo e Dionísio. O meu amor não é fruto de hipérboles. Não estou aqui para ornare verbis em erudição de retóricas incabíveis pois “sou doutorado na escola do grotão...”.
Os meus escritos estão à baila um dia eles hão de brilhar e eu hei de saber contemplar profundamente as sutilezas que as sensibilidades da vida me oferecem. Preciso aprender olhar para dentro de mim mesmo. Preciso mergulhar para dentro de mim e sondar as profundidades de onde a minha vida jorra. Sou um sertanejo emocionalmente piegas, descongelo-me com muita facilidade. Observo, absorvo, vivo, amo e perco amor. O amor é o compêndio do viver. Sem mais preâmbulos, necessito de um grande amor!
Não existe lugar pobre para um grande criador. Eu vou buscar o grande criador. Preciso parar de escrever poesias de amor. Tema corriqueiro como este é o mais difícil de fabricar. A minha vida não é um ensaio poético, mas ensaio escrever usando minha própria Estilística peculiar.
Oh! Linda Bela, não desligas o rádio, saiba que “há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia...” A poesia e a filosofia são intrínsecas, andam sempre de mãos dadas e dão abraços infinitos apesar da segunda habitar lá no mundo das idéias. A minha poesia é brejeira – Pé no chão. “...Não tenho diploma, nem sou (Ph.D.)...” “...Sou doutorado na escola do grotão...” mas conheço um pouco de Kierkegaad. Se quiseres posso ser também o teu Johannes observador, e tu, minha eterna Cordélia tão desejada em pormenores. Oh! Linda Bela, longevidade à nós três!
“A paixão desencadeia-se quando a alma tenta submeter o corpo, porque o espírito não submete suficientemente a alma. O primeiro ato do amor é manter-se digno de ser amado”. Será que não sou digno para tanto?! Recuso-me a tomar o antídoto do amor!
Gostaria de conhecer os segredos da mão de minha sibila para proteger-me das pancadas dos corações alheios. A verossimilhança é a representação da realidade, assim já diz o fornido esteio do mundo ocidental: Aristóteles.
Nem só de poesie vive a mulher, mas de todo feijão que vem do roçado ou do supermercado, portanto, todo marinheiro maresia à deriva que não tem atitude determinante para navegar gostosamente com sua amada no doce a-mar da vida perde-a, esta o abandona e vai em busca de amores turbulências e ao mesmo tempo de um porto seguro. Pode ser que o amor exista somente para os poetas desavisados!
Quase todo amor é experimentarlista, mas nunca experimentei um outro. Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu não me amas, eu preciso de ti. Concluo: no amor, jamais nos deixamos completar...”.
“Desculpe o auê, eu não queria magoar você, pardon,
Foi ciúme doentio, perdi a capita... Perdi a cabeça...” Naquela hora o desespero falou mais alto. Eu desejava mesmo era dizer-te palavras de amor: “Não me abandonas, não fujas de mim”. Naquele instante de agonia eu desejava mesmo era ser carinhoso: “Porque foges de mim... Ah! Se tu soubesses...”
Não se preocupas, oh! Linda Bela, se o meu viver amoroso é desilusão, o meu eu poeta é puramente ficção. A palavra (verba) é mesmo uma Pheithó enganosa. Nunca dê ouvidos para ela.
Infelizmente não posso mais alojar-te e ter-te como hóspede pois o meu coração não tem tranca nenhuma, podes escapar mais uma vez, portanto é melhor mantermos distâncias para que os nossos corações não se resvalem novamente. As ranhuras deles estão profundas, bem recentes e ainda sangram... Só o tempo curará as nossas chagas...
Careço mesmo é de sair de minha própria caverna platônica. Sei que realmente não fostes minha Capitu, mas o machado da dor desceu com muita violência.
Todo ser humano tem vários eus atomatizados: divididos e explosivos. Não sou una persona vingativa qual una personagem shakespeariana, não. Não sou una persona frívola, “sou doutorado na escola do grotão...”
Chega de rancor. O rancor só serve para roxear mais o coração.
Je suis mais l’amour! Ego sum magis amore! Eu sou mais AMOR!
Cordis deve ser domus nostra celebratur!
O coração deve ser a nossa casa festiva!
A areia de minha ampulheta escorrega devagar. Eu sei de meu tempo. Não me sinto um artista, aprecio apenas o vadiar da verba (palavra). O tempo do artista é imensurável. Jamais pode ser contado. “Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não se apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se estivessem em frente a eternidade...”
No inverno dos Sentimentos: Damião Cordeiro, o Poeta do Acaso O quintal posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:56 PM
Lá, onde a aurora soltava maravilhoso doirado cacho, mas, todo ouro belezura crepusculava no efêmero, carnalmente, sobrevivia a estonteante Lia socada numa tirinha de lugar, entre a escravatura corporal e o desleixo do espírito. Lá, lá, bem no epicentro lamacento e encharcado em dor chumbo. Também, amar daquele tanto era de doer. Uma enfermidade fincada no rijo da carne. Lia carregava um grande amor transbordante que não cabia na caixa do peito dela. Lia, uma quase sem-terra que ao mesmo tempo era mulher-matéria devoluta, terra de ninguém, terra de todos. Lugar onde qualquer um pisoteava, fazia lama e não deixava sequer uma marca de amor.
Essa tal de Lia era analfabeta, mas, muito lida em anúncios privês. Lia era (muda calada), porém, trazia o sexo na ponta da língua. Exímia leitora, Lia lia com a ponta da língua e com todos os olhos e com todas as bocas. Enfim, com todos os poros do seu corpo sovelado e esburacado pelos ferrões da macheza. (Amar dói muito), um “entregar-se” desmedido. Lia lia demais. Lia amava demais, Lia, boa Lia! – Um poço de bondade - Lia lia demais. Lia amava demais. Lia, demais !!! Lia, demais!!! assim, cinicamente, diziam os insaciáveis garanhões fedorentos, esses doentes compulsivos doidos por prazeres inventados. Lia amou demais, mas, pegou doença do mundo. Coitada, Lia, uma mulher muito lida em anúncios privês, uma mulher tão prestativa e tão dada facilitou e não pôde ler o receituário da vida: PREVINA-SE CONTRA O ÓDIO DO MUNDO!
Era eu Lia, uma mulher de mil gostos, uma mulher de mil homens, fui reduzida em desgostos, minha causa mortis – disse Maria da Assumpção ao dar com o chaveiro celestial à porta do grande Salão da Claridade cantarolando um hino de louvor e pinicando a viola de São Gonçalo. Bonachão e acudidor de gente em hora de agoniada precisão, mesmo com a voz desafinada e de olhos crescidos, prontamente, São Pedro acudiu: entre minha filha, entre. Não precisa tirar toda a sua... culpa. Não carece debulhar rosários e mais rosários de íntimas particularidades em confissões desnecessárias. Poupe-me dos detalhísmos descritivos, não posso mais cair em tentação, e outra, tenho cargo de confiança, por isso, não vou negar o meu fidedigno voto de castidade. Espiritualmente, recebi o seu curriculum vitae, já sei de tudo na ferida viva do meu coração, por isso tudo, não precisa ficar mais na salmoura do purgatorium encardido, pois é dele que acaba de sair. Limpa, sarada e distante dos assédios dos grileiros de sentimentos, Assumpção pisou no que é dela de direito, assim que recebeu das santas mãos do Pai supremo a sagrada escritura do latifúndio eternidade...
O poeta do acaso – Damião Cordeiro Um mundo a se descobrir posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:54 PM
Como herança de meu avô Tomás recebi de lembrança um lindo cabresto de couro trançado, feito por seo Januário maior soleiro da Serra Geral, que fazia inveja àqueles caboclos que rodeavam em minhas vaquejadas.
Devido ser feito com argolas de ouro maciço, extraído das minas do gerais, galopava em meu cavalo Alazão que nenhuma égua pariu cavalo tão igual, acompanhado de meu cachorro Furacão, companheiro nos maiores desafios nas vaquejadas daquela ocasião, à unha, pegávamos touros erados e bravios naquele pé de serra.
No maior de todos os duelos fui procurado para pegar o touro Cara-Branca, que era o terror dos vaqueiros das margens do rio Mosquito, pelas bandas do patrimoneozinho Jatobá. Chegando o belo dia, areei meu cavalo, vesti minha couraça, calcei minhas esporas, depois de comer um moreno requeijão quente com rapadura mais farinha, enforquilhei-me no lombo da alimária e acompanhado de meu Furacão ganhamos a invernada à captura do tal boi afamado.
Chegando à beira de uma aguada notei que havia alguma rês por perto. Nada mais, nada menos que o Cara-Branca. Busquei o meu cachorro na batida do animal. Então, logo pispiou um corre-corre. Trepamos num sopé de serra e descambamos numa grande vereda, ali, sempre tirando o boi do roçoio. Ao passar sobre uma ponta de serra que susto!!! Ali, estava uma onça faminta na beira do caminho, que dando um enorme pulo levou com uma tapa o meu Furacão. No lampejar do baita susto atirei nela o meu chicote de couro de anta que ganhei de meu padrinho de batismo. Diante daquele trupelo eu virei à rédea de meu Alazão e descabecei serra abaixo. Não vi mais breca do Cara-Branca.
Devido o medo, parecia não distanciar da pintada, então resolvi apear do meu cavalo, desembainhei o meu colino de quinze polegadas e meia, tão afiado que cortava até asa de mosquito avoando. Debrucei a ferramenta nos cipós e galhos da catanduva, lembrando que onça nenhuma pega ninguém se tivesse alguma búia. Arfava um chique-chique nas argolas de meu cabresto. Para piorar mais a situação o tempo fechou e começou a relampejar e trovejar no alto do picão do Sanharol, logo começou uma tempestade, vento e granizo. Naquele instante as bacias deram de zoar na serra. Só livrei das pedras devido a proteção do meu chapéu e a roupa de couro que eu estava vestido. Até pensei que não voltaria mais para o meu rancho. De repente as colinas clareou e eu diante do sofrimento, continuei a puxar pela ponta do cabresto.
Encafifado sempre num pensamento firme: meu cavalo tá enganchado na catanduva, na catanduva. Grudado em pensamentos e no cabresto eu arrastava tudo quantuá e fervorosamente pegava com são Jerônimo mais santa Bárbara para maneirar aquela tempestade impertinente. A chuva minguou mais a toada e eu cheguei junto a uma troncuda quixabeira imponente à margem de um carreador, ali, onde, costumeiramente, a gente aninhava para degustar um requeijão com rapadura e descansava, ou para debicar um aperitivo de Rio Pardo.
Ao sair no local aberto, fiquei muito triste, o que eu carregava com muito esforço não era o meu cavalo Alazão. As pontas de galhos que eu cortei engancharam nas fivelas do cabresto e desabotoou, soltando assim, o meu estimado Alazão no meu do carrasco, era um enorme feche dos galhos e cipós que eu tinha cortado no desenrolar da fuga da onça.
Diante do acontecido perdi de criar fama na vaquejada do boi Cara-Branca, perdi meu Furacão que era fela, abandonei o meu chicote que atirei sobre a pintada e fiquei sem o meu Alazão, mas salvei a minha vida e consegui voltar com o cabresto das argolas de ouro, lembrança de meu avô Tomás. Hoje não faço mais vaquejada nem para casar com a filha de meu patrão.
O Poeta do Grotão: Oscarino Aguiar Cordeiro
Enquanto isso no grotão... posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:45 PM
Corre um boato por aí,
Corre n’alma de alguém
Que meu coração não ama
E que o meu amor é de ninguém.
Corre um boato por aí,
Corre em algum coração
Que sou tão estranho quanto a solidão
E quando passo nem se percebem.
Corre um boato por aí,
Corre que sonhos apossaram do meu coração,
Que em meus sonhos não se ver felicidades,
E que não se ouve minha voz pra não falar de amor.
Em minha solidão guardo sentimentos
Em meu silêncio guardo palavras lindas.
Se um dia sentir sozinho, estarei com você,
E se lhe faltar palavras terei o que lhe dizer.
O meu coração não tem dono,
Nos meus sonhos não verás felicidades;
Mas se lhe faltar amor sentirei por você,
E se desejares felicidades sonharei com você.
Quando passo não me vêem.
Sou estranho e não falo de amor,
Mas se lhe sentires cansado caminharei com você,
E se conheceres a solidão, terás o meu amor.
O silêncio me faz pensar em você,
O mistério é algo para se entender.
A minha voz não perturbará o teu sonho
Mas se entenderes o mistério da vida saberá que amo você.
Esta poesia é dedicada a todos os meus amigos, parentes e conhecidos: JOILSON GRACIANO Poeta do Acaso no colo da memória posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:23 PM
I
O sofrimento,
O silêncio
Na vida sem viver
No amor sem amores.
II
A rua deserta,
O toc-toc do meu passar,
Dos passos cansados e trôpegos
Do silêncio e trabalho.
III
O trago de um gole no botequim
Da poesia na garganta,
Os hábitos dos homens
E da minha paciência.
IV
O cinema lá na esquina da praça;
O meu silêncio sentado no domingo,
O domingo que resumiu numa cadeira,
Passou o meu dia e a noite também.
V
A escola que me repousa;
Professores que me vela,
E os colegas da minha mente,
Da mente que ficou na cadeira da escola.
VI
A lembrança mora nos restos
Dos restos da lembrança caapora,
Do viver e do cansaço,
As conseqüências que medem meu compasso.
VII
A vida na ponta de um lápis;
Do mesmo lápis que apontei
Umas poucas linhas que rabisquei
Das lembranças que guardei.
VIII
A vida que sonhei
Dos pesadelos que hora atormenta;
A vida dos meus sonhos
Que dos rabiscos não sai.
Serranopolitanamente: Joilson Graciano
Carta a Um Jovem Poeta Serranopolitano
São Joaquim da Barra 22/04/1986
Saudações
Amigo, foi com imenso prazer que eu recebi suas notícias. Sob este vasto céu azul não há quem não sonhe um pouco. Minha vida não teria sentido se não fosse meus amigos que sempre me inspiraram.
Eu muito tenho pensado e refletido sobre a vida. Infelizmente, não tive a sorte de ouvir as músicas que me apareceu. Sou lhe muito grato. Eu não sonho muito alto, mas acho que tanto eu quanto você temos chances de realizar nossos sonhos: escrever! Fico feliz quando algum amigo alcança ideais ícaros. E estou torcendo para que consiga o que queres. Ainda não escrevi para o Rio de Janeiro, mas vou escrever. Trabalho muito e quase não tenho tempo para escrever meus versos em trovas. Quanto ao progresso da cidade também fico contente. Às vezes me sinto só e começo a pensar. Aí, que me vem algumas idéias, mas escrevo poucas delas.
Estes dias a minha professora leu uma pequena poesia que escrevi à alma de minha mãe. Ela ficou muito comovida. Neste momento, o meu caderninho de trovas encontra-se emprestado, mas vou tentar escrever alguma coisa para elevar a minha alma. Eu penso em me formar em educação física depois da contabilidade, pois o importante é que gostamos da profissão que praticamos.
Olha Damião, aqui eu tenho umas amigas e já falei de você para uma delas que se chama Roni. Esta deseja-lhe boa sorte e muitas felicidades.
Sabe Damião, às vezes, insatisfeito com a burguesia de nosso País, tenho pensamentos longe de mim. Acho que o melhor caminho para o povo mais fraco é o socialismo. Não sei o porquê que estou lhe dizendo isso, mas eu preciso desabafar com um amigo. Este ano na minha escola eu vou lutar no grêmio estudantil por nossos ideais. Eram quatro chapas para alunos e professores votarem e a nossa ganhou com o nome “Tem Que Dar Certo”. Eu até fiquei convidado por um amigo meu para participar das reuniões municipais do partido do PT que são na maioria gente jovem. Bom, chega de besteiras, quero lhe desejar muitas felicidades com os seus estudos e ideais. Volte a me escrever. Quero também desejar felicidades para os seus pais e irmãos. Saber como vão indo eles. Quando encontrar amigos meus, dê-lhes abraços meus e felicidades. Dizei-lhes que ainda vivo e lembro deles. Talvez, eles pensem que eu já os esqueci.
Até breve! Um dia chegarei aí para rever os amigos, mas não sei quando irei. Desculpe minhas falhas.
Cordialmente: Joilson Graciano posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:22 PM
Os riscos que as ferragens das rodas do carretão fazem nas nossas vidas são mais sutis e melindrosos que escrevinhar sobre tais.
Certa feita eu vi um carro de boi despencando sobre mim numa descida de carreador onde só os carrões subiam. Estes quando motorizados com bois de categoria singular. Óleo diesel e pneusada só na rodage longe dali.
Mas não é disso que lamenta este pobre ruminante.
Puxar a carga, segurar o peso, subir a ladeira e ainda esquivar das varas e ferrões, eram atitudes.
Atividade una!
Dolorida, pesada como a carga pro carreiro.
Que bom que o progresso veio e me tirou esse peso desmedido. Ind’oje eu trago o meu lombo marcado de vara de broto de folha larga e as ancas marcada de ferrão como estrelas na noite sem lua.
Meu patrão-dono me dava duas coisas boas: água e desato de nó da guia. No meu pescoço eu senti o peso da carga, dos tocos quando o carro batia a roda de madeira. Porque não inventaram uma coisa chamada pneu?
O ardor da cipoada no lombo ainda me corta a alma de boi.
Escravo? Nada! eu era tido como bicho de estimação. Que inveja do cachorro. Vira-lata? Isso era nome nobre!
Eu tenho nome, sou carne e osso e sonho. Mas me apelidam de cada coisa!
Minha famiage teve sorte pior! Matadouro!
metade morreu de sede, metade esquartejado no matadouro!
Eu e minha sorte cruel: puxar madeira na corrente, carretão e o maldito carro de nós bois. Este último é o trauma da minha espécie. Morando em ladêrarriba, pior ainda!
Nas viagens quando a carga era considerada pelos humanos de leve ou contrapeso, eu era obrigado a esperá-los almoçar sob sombra fora do caminho, deitado no chão quente, remoendo meu sofrer, com a canga sobre meu dorso. o Pior é que o carro de nós bois estava engatado. Porque não tirava aquela merda enquanto almoçava?
Será que eles achavam isso bonito? Ou era para me zombar, humilhar...
Levanta Brioso! Levanta Caeté!
Na purunga deles uns 10 copo d'água.
O rio é tão longe!
Estradas secas e ladeiras esburacadas!
Sair da casa do meu patrão-dono com pouco peso é sinal de brutalidade na volta.
O fidumaégua mora em cima dum moro.
Que sorte cruel!
Como chama mesmo a minha aposentadoria?
M-a-t-a-d-o-u-r-o...
Ah! Isso mesmo! Matadouro?
Autor: Welton Nogueira de ALMA SERTANEJA posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:14 AM
Aqui em terras fluminense chove e faz aquele friozinho...
Bate aquela felicidade bem interiorana do sertão, de ser tão...
aquela felicidade enganosa, como se no pé da Serra Geral também estivesse...
Asso pão de queijo enquanto o café é coado bem à moda caatingueira...
A mineirada dos alojamentos da UFRRJ sente o aroma e começa a aparecer...
Ainda vem aquele povo desconectado da natureza reclamando que não tá dando
praia...
... desconhecem a tristeza de ver um roçado esmorecido pelo
sol, falta d'água e pela areia escaldante...
E sigo estudando a monocultura da cana para a prova de amanhã, mas só consigo pensar nos
minifúndios lá dos gerais, que para quem gosta, que não é o meu caso,
produzem as melhores cachaça do país...
Ana Amélia dos Santos Cordeiro Borboleta serranopolitana posted by DÉLIO PINHEIRO at 2:14 PM
Entre uma e outra gargalhada sádica, de camarote, eu me posiciono no melhor ângulo sobre os trilhos da cortina da janela boquiaberta e calada do tempo surdo-mudo para assistir a saga. Amado e armado com seu grande escudeiro feminino para se proteger da solidão, do tédio, e do ódio de meu mundo tirano, o poeta chega para uma visita inesperada. Ele não veio requerer peças, tampouco para reconstruí-las. No palco salpicado de imagens estarrecedoras, o tempo cuidou de encenar-lhe sórdida peca. Com sensibilidade óptica de observar cenários carquejantes, o poeta se embebe em energias fortemente presentes num grande vácuo tomado de mofo e poeira. A rotina teimosa parece não sair do lugar. O patrão deu todas as ordens possíveis. Os operários quiseram cumpri-las à risca, bem antes do pedido chegar, quer dizer, as ordens eram: sejam breves!
Mais faliram as vidas. A fábrica morreu. O relógio de picar o ponto parou no tempo. A desolação abocanha galpões inteiros e todo pátio. A rotina teimosa insiste não querer sair do lugar... parece que é apenas um pequeno recreio, o suficiente para o reabastecimento dos homens-máquinas, mas o tempo é vagão, carcomido que não descarrila na normalidade das coisas ...
A janela escancarada do tempo rígido não bate, somente apanha ferrugem. Ela não concede qualquer rangido de intolerância. Eu, esta baratona obesa e devoradora de restos sentimentais de pessoas físicas e jurídicas trafego despreocupada pelos trilhos sem temer o brilho higiênico das faxineiras rôo a cortina do tempo ranzinza. Pelos furos do passado, uma luz intensa de vida teme adentrar, somente espia o poeta melancólico mais o seu escudeiro feminino naufragados naquele marasmo. O futuro incerto e inseguro cresce e trança rapidamente agarrado feito unha de lagartixa trepando na barra da saia do tempo-vagão. Sádica e orgulhosamente, assisto toda a cena cáustica. Para melhor nada muda. O apito mudo da fábrica sutura pincela tela fúnebre. O ferro, esse metal persistente tenta passar despercebido pelos janeiros, mas não consegue se imortalizar. Ele vai se fundindo com o tempo mordaz e não moldeia eternidade. Em cada ferrugem que rôo engordo mais. Muito mais. O verme nutre do tutano da morte.
Damião Cordeiro, o Poeta do Acaso posted by DÉLIO PINHEIRO at 5:43 PM
Chega ano bom. Seria bom se fosse sempre bons os anos. Sem recaídas ou desassossegos grandes. E que a carne fosse leve e eterna como a alma. Nada de cargas. Nada de via-crucis do corpo. E que o Paraíso fosse dentro de chaminés entupidas de Papais-Noéis e de presentes. Para todo o sempre presente uma fábrica de sonhos tão bons e tão reais onde a vida estagnasse nos favos...
Mas já foram edificadas dez décadas desde que o homem conquistou a lua e que eu brotei-me cacto teimoso seivando vida por um fiapo de nada na tortuosa caatinga rala. A vida entardecida agora se faz presente. Os músculos rígidos transformaram minha preasice em tartaruguice. Tenho vontade de prosseguir, mas não agüento andar só. A solidão arrocha-me nó cego. Até a bengala que seria minha inseparável companheira foge do tato deste traste véi.
Moro de favor, importunando parentes carrascos, enquanto que meu bisneto arquiteto tem um esplendoroso projeto de como apossar de Marte, e lá implantar um próspero empreendimento imobiliário que aliviará a superlotação terrestre. Sou ilhado de desprezo humilhante. Coisa natural do homem. Estou jogado num cubículo sem luz, úmido, recheado de mofo e de pernilongos sanguessugas, impertinentes. Não fui convidado para apreciar da festa, apenas assunto o tinir das taças cheias de vinho e chamapange importados misturados com diálogos confusos, vozerio alterado e gargalhadas ébrias que perturbam minha preciosa lucidez aguçada. Ameaço levantar rapidamente para enforcar de uma vez por todas aquela balbúrdia irritante, trituradora de minha “paciência de Jô”, mas os meus impulsos furiosos são acalmados pelo traquejo dos janeiros viajados. As pernas não me dão corda. Acabo sentando-me no catre; ora lambo os lábios roxos em doces lembranças; ora folheio mnemonicamente um velho álbum de fotografias amarelecidas pelo tempo esfomeado; ora guspo seco e amargo repunando algumas cenas indesejáveis da criancice à mocidade...
Vivi minha infância em bandos de irmãos e primos, livre, bodocando mata adentro atrás de passarim. Na juventude passei lidando com roçados em barrigas de morros e sempre encantado por um amor único, intenso e eterno. Viajava léguas atrás de fandangos e de moças prendadas de muito zelo e de muito carinho delícia, porém, jamais amei, tampouco fui amado. Mesmo assim, Maria da Paixão Hayo e eu resolvemos montar uma fábrica de fazer belos filhos que foi à falência logo após o feitio do primeiro produto.
Regressando ao hoje, ao agora, a treva melancólica entreva e paira sobre o meu corpo negro, solitário. Janeiros mordazes mastigam os meus cabelos empainados. O inverno da vida surrada germina das solas de meus pés atrofiados e se prolifera pelas palmas pálidas de minhas mãos trêmulas. Aliás, em mim tudo neva. Diariamente, resume-me em gear. Icebergs de sentimentos reprimidos encalham entre minhas retinas e minhas pálpebras cansadas, mas não derretem. Pela fresta da porta entreaberta enxergo cristalinamente os destroços do revellion espatifado por toda a parte: garrafas, estilhaços, resto de bolo, melaço impregnado no ladrilho encardido e corpos desfalecidos esparramados sordidamente. Saindo da ordem celestial. Todo cenário desolado mais parece um campo de batalha após atrito avassalador. Lá fora, dois mil e sessenta e nove floresce febril. Assunto o orquestrar harmonioso das jovens cigarras joviais completamente despidas de qualquer tipo de rancor ou desprezo para com o próximo. À vontade, assim, soltas ao banho de sol elas estão repletas de vontades e de potencialidades para cantarem por muito e muito anos novos, vindouros até se arrebentarem de tanto esforço nalguns falsetes mais exigentes e mais duradouros...
“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.” – 1 Coríntios, VI, 12
É uma tentação. Para todo o sempre está impregnada no tutano genético humano essa eterna e fervorosa devoção do Homo sapiens por um thermopolium. Mesmo que seja a pior das espeluncas. Isso mesmo, thermopolium: palco espaço de âmbito cultural não só para biritar, mas também onde que se pode ter uma boa idéia prum cogitarium de filosofar com sapientia et scientia toda ação consuetudinária de toda a vida alheia. Num certo dia que aparentava ser igualzinho tão quanto outros demais navegados na mansidão da trivialidade, tão logo que o botequeiro, seo Terafim de Boas Virtudes, escancarou as dependências de seu “ganha pão,” recebeu o freguês, seo Zé Pitêra, morador primeiro do Projeto 51. Freguês esse, o mais ilustre e também o mais freqüentador do thermopolium, um moço de boa índole, comportado, acadêmico, comunicativo e de prosa comprida, que, apesar de falar demasiadamente repugnava qualquer espécie de bebida alcoólica. Era religiosamente assíduo, para ser bem mais preciso, pontual, pontualíssimo. Não pecava... não falhava sequer um só dia, muito pelo contrário, diariamente raiava bem de manhãzinha para abastecer-se de dois maços de cigarros fechados. Pois então, certa feita, sem nenhuma pretensão de liderar qualquer tipo de fanatismo religioso que pudesse arrastar pra si, multidões, seo Zé Pitêra adentrou no recinto botecal de conversa bem minguada:
- Tem cigarro solto?!
Espinhando-se em tamanhas estranhezas, sisudamente, o botequeiro pigarreou e rosnou com aridez:
- Não, tem não.
- Por quê?
- Ué, porque cigarro est barbarus, mata gente...
Sentindo na cachola aquele sopapo fonético, “bar-ba-rus,” e também estacando bem no miolo da massa encefálica o slogan: “Cigarro solto est barbarus, mata gente,” o freguês matutou um bocado e, pausadamente ruminou bem o matutado. Fatigou-se com uma nebulosa fumaça na consciência. (Mais culpa que dúvida). Parecia até que thanatos estava rondando-lhe, pois momentaneamente faltou-lhe ar. Recuperado, o freguês comprou um só maço de cigarros, lacrado, e engavetou-o sem bulir. Com o navegar do tempo tingidor, ironicamente, o maço apresentou nódoa amarelecida pelo tempo, desprezado, esquecido lá no fundo da gaveta dele; enquanto que o bigode crespo, asa-de-andorinha, outrora, chaminé ambulante, pitador de destaque, simultaneamente, desencardiu.
Fascinados e, ao mesmo tempo, perplexos pelo o acontecido que os deixaram num grande abalo/aflição psíquico-espiritual, fervorosamente, seo Zé Pitêra e o botequeiro bateram os joelhos no chão, meio assim, em transe, agradeceram verdadeiramente pela graça alcançada mesmo sem a lucidez do pedido: parar de fumar! Agradeceram todos os santos acessíveis e também os inatingíveis, desde o mais baixo escalão hierárquico de santidade, até São Pedro, o porteiro dos céus, que, evidentemente, é o mais graduado. Esse acontecimento foi um divisor d’água. Seo Zé Pitêra descasou-se do compromisso familiar e o botequiero, homem também culto, polido em leituras filosóficas, do comercial. Aliados e ungidos em comunhão evangelizadora, messiânica, os dois sábios prenderam-se na corrente da desintoxicação pulmonar, trazendo à baila a questão do tabagismo, esse câncer aceso que dilacera e corrói à socapa o cerne mole de nossa sociedade que nunca apita nada, mas não deixa de ser uma autêntica maria-fumaça desembestada, fora dos trilhos. Hoje em dia, eles pregam de bar em bar sobre o veneno fatal que é a nicotina, e mesmo sem a autorização dos proprietários, eles sobem nos balcões, e em cada palestra realizada, dão testemunho verdadeiro, citando como exemplo a façanha vivida por eles mesmos: cigarro lacrado & bigode desencardido. (Fato esse que se não fosse o embriagamento fanático da cristandade à flor da verdade absoluta, não passaria de uma simples ordem natural das coisas e do tempo). A tão-glorificada e desvairada empolgação já é tamanha que ambos festejam veementemente em demasia, regados à centena de cálices sôfregos, amiúde, sôfregos... e ... e....trôpegos... de São Rafael, São Joaquim da Barra, São Roque, São Tomé ... Já vai pra mais de ano que esses dois companheiros estão nesta custosa e peregrinosa missão como oradores e obreiros anti-tabagistas. Hoje, na amanhecida do dia, eles foram vomitados na calçada do firme thermopolium Santa Breja, aqui na Rua Ministro de Godoy, bem na fuça da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São alcoólatras conhecidíssimos.
Damião Cordeiro, o poeta do acaso
Vocabularium
Homo sapiens: homem sabedor
Thermopolium: botequim
Cogitarium: sala do pensar
Sapientia et scientia: saber e ciência
Consuetudinária: costumeira, habitual (de uso)
Et barbarus: é bravo
À baila: a questionamentos, discussões calorosas
À socapa: às escondidas
Thanatos: morte
A capivara flagrada em Serranópolis posted by DÉLIO PINHEIRO at 3:18 PM
Colhi uma frase perfeita: "Regue todos os dias o seu jardim, porque só assim as borboletas virão".
Eu estou torcendo para que os beija-flores venham à minha sacada para me trazer um pouco de colorido através da trepidação de suas maravilhosas asas penadas que se confundem com o olhar azulado de quem tem carinhos de algodão. Isso eu só posso ver nos fins de semanas ou a cada manhã que o verde dos colibris está à mostra e os olhos do meu doce presente ainda dormem. Quando o sol bate nas paredes de bloco bruto com cimento à vista, nos fundos da mesma sacada donde poderia aparecer o poderio dos cuitelinhos, cruzam andorinhas de lajedo com seus pios sutis fazendo ziguezagues nos ares acima das minhas duas palmeiras transplantadas na terra vermelha do duro torrão que custaram dez anos de labuta.
No quintal do lado, uma cadela com manchas pretas sobre pêlo branco, brinca com uma curruira que ora senti medo, ora coragem, ora curiosidade...
A mesma garrincha que me lembra as amoreiras povoadas de figa e bem-te-vi defronte uma montanha coberta de meruégua nas manhãs de chuva do meu pequeno e inesquecível Caeté.
Neste domingo, de pouca expectativa, saboreio os primeiros raios de sol como se saboreia o cheiro do café torrado quando perfura os vasos do coador brigando com água quente sem açúcar. O café será adoçado minutos depois.
O sol já esquentou o único pé de samambaia pendente nas paredes do quintal. As aves alimentaram seus filhotes, agora silenciosos. O colibri não veio e eu me contento em ver o azulado olhar do maior presente que eu já tive.(Bia). Alimento a alma e adoço a vida nos olhos de mel de uma das princesas da minha vida. (Ludi). Conforta-me a falha visita do beija-flor. Acalenta-me um sorriso no meio de cabelos esvoaçados.
"Viagem Aos Seios de Duília" (Aníbal Machado), mas... uma viagem feito essa, o poeta Welton Nogueira fez após trinta anos de distância. Regressou ao pequeno e inesquecível Caeté, onde a infância passou por ele."
O CAÇADOR QUE VIROU ONÇA AO SER PUNIDO NA NATUREZA DE UM BICHO-HOMEM
* “Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei?! Axi. Não falei – eu viro onça? Onça grande, tubixaba. Ói unha minha: mecê olha – unhão preto, unha dura... Cê vem, me cheira: tenho catinga de Onça?”
Soa tropel arraigado nos cascos da selvageria. O eterno anoitecer tão indesejado galopa incansavelmente caçando extinguir de uma vez por todas o meu lamentoso turrado e junto com ele esta massa desmusculada, cuja honra está em carne viva. Sou caçada implacavelmente pelo ódio que não dá um meio dia de trégua. Por que não ser caçada pelo o amor?! Por que não ser caçada pela paz?! Sou bicho, ódio herdado próprio do homem-bicho. Ressabiada, talho trechos gerais adentro, vida afora. Será que é merecido receber todo este tratamento aniquilador?! Farejo respostas, formulo outras mais indagações novas não correspondidas. Dizem as más línguas que minha sentença há de torar muitas léguas de invernadas bravias, emparelhada com a morte engatilhada em meu lombo. Sem ter o livre arbítrio de escolher a grossura do calibre, meu dever é sentir no pêlo todas chumbadas que disparei quando humano. O que sinto neste peito de caça atormentada não desejo nem mesmo para o maior inimigo do homo sapiens. Era eu um exímio caçador, certeiro na pontaria, o mais mió desonçador desta vastidão de terra que vai desde Formiga, Rapadura, Jotabá, Budega, Tremendal, Gameleira, Mata de Jaíba. Abarcando até nos ermos de Grão Mogol. Munido de apurada técnica, eu não desperdiçava sequer um bago de munição. Derrubava somente para apreciar espetaculares tombos mortais e ouvir os derradeiros grunhidos suspirosos dos bichos agonizando. Assassinava até mesmo calanguinhos de pé de lajedo que nem dava para encher a panela de meu dente. Então, realmente eu era caçador impiedoso, de coração duro e de gatilho mole. De difícil e de fácil manejo.
Meu passado obscuro comprometedor sovela meu couro em chagas cutucantes, reflexivas. Há rumores que este meu calvário tardará findar. Caso eu seja alvejada com precisão, provavelmente não conseguirei varar toda travessia penosa, assim sendo, conseqüentemente, não quebrarei o encanto. No agora farejo esconderijos, atalhos essenciais para manter-me viva. Ando esguaritada, perseguida pelo destino da má hora. Cumpro rigorosamente esta sentença, saga que a mim foi designada, mas de maneira nenhuma esbarro de sonhar com o real desencantado. Cigoaçuarana macho, felídea prisunha sou. Pêlo meu é tingido por uma cor meio fouveira, assim, claramente tendenciosa para o amarelo aboborado. Surrando o trivial, sempre estou batendo em retirada, amoito-me uma noite aqui, outra acolá, sempre no desconfortável das camas sem paina para o colchão, tampouco capim-gordura para o forro. Varro pés de serras, chapadões de campos-gerais, carrascos catingueiros e tabuleiros de cerrados imensos, de perder de vista, onde ora acuo-me, ora recuo-me, ora contra-ataco em legítima defesa. Desenho mil piruetas circenses pelos grotões da vida ariscosa. Com os zóios bem chegado no amarelo, camuflo por entre as folhagens amarelecidas dos campos pois os cães das cartucheiras apontadas e dos caçadores algozes buscam, miram-me.Todo santo dia é dia do caçador, portanto, todo diacho de dia coloco em jogo toda destreza de um iauretê verdadeiro covardemente ameaçado e vou me esquivando, desmirando desmirando a direção do iminente trágico fim. Até quando, não sei...
Nesta vida vivida como bicho do mato, de mato, o bodum já é bem familiar, cheiro esse que apesar de todo ambiente contaminado pela sagacidade, não deixa de excitar-me e assanhar-me desejos puramente carnosos. Cabritinhas, marrãs ainda cheirando a leite é o meu prato favorito, abundante. Como-as friamente sem esboçar qualquer emoção sentimental, de amor; (dizem os humanos: é porque és bicho, bicho do mato), assim o faço somente pelo prazer da carne, para suprir minha necessidade fisiológica, sobrevivencial e também para aprimorar meu pulo de predadora quadrúpede, porque não sei até quando terei garras afiadas o suficiente para lutar ferrenhamente contra o encanto que a mim foi promulgado. Ser onça.
Flor da serra, lugar onde a onça de Damião sonha em sair ilesa de chumbadas matadeiras
Hoje em dia perambulo solitária, outrora, eu curtiava a vida bem acompanhado. Tinha um ódio de matar. O meu prazer era mesmo desonçar, desonçar, desonçar... Tratando-se de “gatas” eu apreciava mulheres, fêmeas escolhidas a dedo, aliás, inda hoje me gabo, era eu um homem que tinha um quê de belo. Fui sempre homem leve livre solto, farrista, gostava de me lambuzar num rabo de saia. Impregnado em mim reinava o sugestivo apelido de “Boca da Noite.” Era eu mesmo um excelente galanteador. Um certo Dionísio das brenhas do sertão. Não perdia sequer uma só fuá. Sempre bem engomado, perfumado e sem vontade de enrabichar seriamente saía eu na boca da noite para jogar o meu charme e minha doce bicaria às fêmeas, pois era quando o sol dormia que minha libido aguçada deixava-se aflorar incontrolavelmente em erupções torrencialmente sentimentais, sedutoras, cheirando a amor carnalmente humano. Assiduamente brotava aquele desejo avassalador de consumir e de ser consumido. Ah! como era vida regressar para casa só no descoser da barra do dia, assistindo ao vivo e em cores o indesejável falecimento da última estrela que espremia para juntar forças para segurar o derradeiro suspiro dependurada no fiapo da teimosia. Também sou tomada de teimosia, um dia hei de desvirar antes que o anoitecer dos breus me engula para sempre nalgum pipoco fatídico de pólvora chamuscada.
Se caso eu conseguir varar esta minha travessia penitenciosa e sair ilesa de chumbadas matadeiras, hei de desvirar, novamente ser humano, ser gente, viver como gente de verdade, verdadeira. Adquirir toda qualidade para que eu possa ser perdoada pelas minhas bramuras danosas traquinadas por essas derriçadas sertanias. Pretendo adquirir toda capacidade possível para aprender perdoar meus perseguidores. Adquirir respeitos aos animais de todo planeta, (inclusive o “humano,” esse que arrota valentia), e por fim, se eu não for caçada pelas burocracias constitucionais, pretendo adquirir também um “Simba Safári” filantrópico, colossal, sem nenhum tipo de visitação pública e nem cobrança monetária, (pois a constante presença do humano e a ação do capital giratório são manobras tapeadoras de perseguição seguida de exploração extrema). Não quero aprontar armadilhas. Quero simplesmente atender todas as vítimas perseguidas por predadores sanguinários que nos abatem a bel-prazer só para desequilibrar e escorraçar a harmonia do bem-estar da normalidade. Como é de todo sabido, o mundo tem sede de amor, portanto, vou fazer um imenso servidão/aguada cheio da mais transparente água-espelho, onde, sem narcisismo, os homens perseguidores e os homens perseguidos tenham coragem de dar os rostos para olharem e serem olhados na petição e no recebimento do perdão. Vou tê-los como pacientes internos para ensiná-los como cuidar da vida a pão-de-ló na mais justa das partilhas.
Damião Cordeiro, o poeta do acaso!
Antigamente era...
Formiga: Montes Claros
Rapadura: Mato Verde
Jatobá: Serranópolis de Minas
Budega: Porteirinha
Tremendal: Monte Azul
Gameleira: Janaúba
O restante, uma vadiação ficcionária...
NOTAS:
*Fragmento de MEU TIO O IAUARETÊ, de Estas Estórias. ROSA, João Guimarães. Rio, ed José Olímpio, 1969
Guimarães Rosa (1969) fundamentou sua visão sobre a ocupação das oligarquias rurais para compor a novela “Meu Tio O Iauaretê”, que descreve a história de um onceiro, que convive com um negro, ambos moradores enviados por m fazendeiro para acabar com as onças da área e para iniciar a implantação de algumas instalações necessárias ao criatório de gado.
COSTA, João Batista de Almeida. O Ser da Sociedade Sertaneja e a Invisibilização do Negro no Sertão Norte do Gerais. p. 120 do livro CERRADO E DESENVOLVIMENTO: Tradição e Atualidade. Coletânea de textos apresentados no IV Encontro Nacional da Rede Cerrado de organizações Não Governamentais, realizado em Montes Claros, nos dias 17 a 20 de junho de 1999. Editoração gráfica: Imprensa Universitária da Unimontes posted by DÉLIO PINHEIRO at 7:01 PM
No ano de dois mil e sete
Dia oito de fevereiro
Seu Zizi contratou
Cinco bons vaqueiros
Carlos, Bispo, Celmo
Valdeci e Valmir Pinheiro
Escute meus amigos
O que vou Ihes contar
Vou falar da vaquejada
Na região do Brutiá
Saíram da Fazenda Ravena
Mas não chegaram lá
Ao passar por Serranópolis
Foi muito complicado
O povo corria com medo
Com medo corria o gado
As rezes quebraram a cerca
Do nosso amigo Deraldo
Ao passar no “Calça Sapato”
Mulheres faziam caminhada
Passaram em cerca de arame
Com medo da novilhada
Quem sofria da espinhela
Na hora não sentiu nada
A viagem foi interrompida
Na subida da ladeira
Porque quatro novilhinhas
Entraram na capoeira
Dois vaqueiros foram atrás
Ma voltaram na carreira
As novilhas esbarraram
Na colméia de abelhas
Levaram ferroadas
Até nas pontas das orelhas
Por isso elas saíram
De dentro da capoeira
Celmo e Bispo foram atrás
Para voltar o gado
Desceram dos cavalos
Deixaram um amarrado
Entraram a pés no mato
Quase foram pisoteados
Os dois "nego duro"
Saíram na disparada
Passaram perto dos vaqueiros
E não disseram nada
Só ouvia pau quebrar
Dentro da mata fechada
Ao olhar para trás
Ficaram desesperados
Ao ver tantas abelhas
Atacando o cavalo amarrado
Com apenas meia hora
Elas tinham o matado
Ninguém teve coragem
De soltar o coitado
Pois num raio de cem metros
Tinha abelhas pra todo lado
Todos ficaram tristes
Por não tê-Io salvado
Geraldo foi de moto
Na frente das novilhadas
Já chamando o gado
Pra não sair da estrada
Quando estava pertinho
Ele deixou a boiada
Porque estava demorando
Ele voltou na estrada
Gritou os companheiros
Ninguém respondeu nada
Voltou cantando pneus
Ao levar ferroadas
Carlão tentou atalhar
Veja só que besteira
Porque não conseguiu
Ele disparou na carreira
O gado correu atrás
Rolando pedras na ladeira
Meu amigo Valdeci
É vaqueiro de opinião
A maioria correu
Porem ele não
Ficou com Bispo
E Celmo Deitados no chão
Valmir cortou o braço
Foi sangue pra todo lado
Ele percebeu isso
Depois que tinha chegado
Lavou o braço com pinga
Logo estava curado
Bispinho perdeu espora
De tanto tropeçar
Rasgou sua calça jeans
De tanto tombo levar
Pois correr no mato
É ruim pra danar
Depois de quatro dias
Bispo voltou no local
De longe ele avistou
Seu pequeno cavalo
Estava comendo umbu
Pertinho do curral
Bispinho coitadinho
Achou que não ia receber
Porque o gado voltou
E deixou o cavalo morrer
Seu Zizi disse pra ele
Antes ele que você
As abelhas assassinas
Comportaram muito mal
Quem bagunçou foram as novilhas
Não o pobre animal
Só porque estava amarrado
Matou o pobre cavalo
Para tirar os arreios
Teve que madrugar
Os vaqueiros lá não foram
Foi um moço do Brutiá
Mesmo ele sendo covarde
Ninguém queria ir lá
Desculpe pelas brincadeiras
Meus prezados vaqueiros
Quem pediu estes versinhos
Foi um dos companheiros
Até outra oportunidade
Almir Alves Pinheiro
O autor deste poema, Almir Alves, é autor também desta foto. "O dinossauro" é o nome dela posted by DÉLIO PINHEIRO at 6:58 PM
E o ser tão do sertão ainda resiste,
seus povos, como as árvores do semi-árido,
despem-se, camuflam-se,
ressurgem grandiosas como o juazeiro,
só espera os primeiro sol da primavera,
aí tingi-se os galhos secos, tudo se transforma.
O ser tão resiste no cheiro do pequi,
no gosto do umbu,
nos olhos indígenas da índia miscigenada,
de Xacriabá à quilombola da depressão São Franciscana,
resiste na luta do seu povo.
É saudado pelos ipês brancos, roxos e amarelos,
batizados por cada afluentes e pela calha do Grande Chico,
símbolo de luta, persistência e resistência.
De um povo que agoniza, mas ainda
acredita no poder e na força de ser tão,
na força do sertão
Ana Amélia Cordeiro
Poetisa do Sertão
Força do sertão posted by DÉLIO PINHEIRO at 6:57 PM
Recebi esse e-mail e desconheço o autor dessa carta. Fiz algumas adaptações e a apresento aos senhores e senhoras que acessam esse blog mantido pelos escritores de Serranópolis de Minas.
Délio Pinheiro
Prezado amigo TEÓFILO OTONI,
Nesta VIÇOSA manhã de primavera, de onde se contempla um BELO HORIZONTE, um CAMPO BELO e MONTES CLAROS, cobertos de um MATO VERDE vistoso e, ainda, neste ambiente FORMOSO de nossa terra, quando se pode contemplar também, pela madrugada, a ESTRELA DALVA, escrevo-lhe para colocá-lo a par dos últimos acontecimentos.
No âmbito familiar, a nossa prima LEOPOLDINA, ESPERA FELIZ dar a LUZ a seu primeiro filho que, se for homem, se chamará ASTOLFO DUTRA e JANUÁRIA, se mulher. Para cuidar do rebento, ela contará com abnegação da sua governanta MOEMA. Mas, enquanto ela aguarda seu bebê, lava roupa tranqüilamente nas BICAS existentes em um RIO NOVO, afluente do RIO ACIMA, que passa pelas terras de DONA EUZÉBIA, naquele LARANJAL, perto da CAPELINHA, onde, na hora do RECREIO, a meninada sobe na PONTE NOVA, para pescar LAMBARI e PIAU e soltar PAPAGAIOS.
A prima NATÉRCIA comprou uma casa na Rua JOÃO PINHEIRO, perto da casa do ANTÔNIO CARLOS. Lembra-se daquelas PEDRAS DE MARIA DA CRUZ que você queria comprar? Ela resolveu vendê-las, menos a PEDRA AZUL, porque ela diz ser a mais bonita e valiosa.
Quanto aos aspectos sociais e religiosos, temos novidades.
Na próxima semana, o CÔNEGO MARINHO, da diocese de CURVELO, vai fazer a Festa de SÃO TOMÁS DE AQUINO. Se você quiser aparecer será um grande prazer. A nossa prima VIRGÍNIA é quem será a responsável pelo evento, juntamente com seu PAI PEDRO. Vai ter missa celebrada pelo reverendo local, PADRE CARVALHO, em honra ao Santíssimo SACRAMENTO. De manhã, o bispo DOM SILVÉRIO irá crismar as crianças.
Depois haverá um show com o Agnaldo TIMÓTEO. Em seguida, a Banda Musical SANTA BÁRBARA, sob a regência do maestro FRANCISCO SÁ, executará o GUARANI. Depois o Barão de COROMANDEL fará a saudação ao aniversariante. A festa era para ser no mês que vem, mas todas as DATAS do cantor estavam preenchidas. As primas SERICITA e AZURITA vão fazer a comida. Como prato principal teremos PERDIGÃO e PERDIZES à milanesa e PATOS DE MINAS ao molho pardo.
De sobremesa teremos compota de MANGA, tendo sido escolhida a UBÁ, por ser mais saborosa e pêssego em CALDAS. À noite, haverá um baile no OLIVEIRA Country Clube, ao som da orquestra do maestro COUTO DE MAGALHÃES, tendo como principais solistas os renomados músicos IBIRACI ao saxofone e NEPOMUCENO ao trompete. Será uma boa ocasião para os convidados exercitarem os seus PASSOS ao ritmo de boleros.
Mudando de assunto, na fazenda, fizemos algumas reformas. O CURRAL DE DENTRO estava com o telhado estragado e tivemos que trocar as vigas. Desta vez colocamos CANDEIAS, por ser madeira de muita durabilidade, todas compradas do CORONEL FABRICIANO. Com a sobra da madeira ainda reformei a PORTEIRINHA que dá entrada para o quintal.
Na festa estará presente o CORONEL MURTA, o PRESIDENTE WENCESLAU, o JOÃO MONLEVADE, o CORONEL FABRICIANO, o CAPITÃO NÉAS, o BARÃO DE COCAIS, o Barão de BARBACENA, e várias outras personalidades, inclusive um ator da Globo, o LIMA DUARTE. Só não poderá comparecer o VISCONDE DO RIO BRANCO porque ele está em CAMPANHA política.
Iremos cobrar um valor simbólico como entrada, para reverter em benefício dos desabrigados da chuva, mas apenas uma MOEDA de PRATA. Vou lhe dar outra grande notícia. Perto do ENGENHO NOVO, naqueles barrancos cheios de FORMIGA, um empregado nosso descobriu MINAS NOVAS de OURO BRANCO, OURO PRETO, ESMERALDAS e TURMALINA, portanto será uma NOVA ERA e uma BOA ESPERANÇA para todos nós. Infelizmente, por causa dessa riqueza, a violência começou a aparecer na região. Um homem de TRÊS CORAÇÕES foi morto por um garimpeiro, usando uma faca de TRÊS PONTAS.
Na área do desenvolvimento, a dona CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO quer aumentar a fábrica e incrementar a produção de açúcar.
Assim, tem um projeto de construir uma usina aproveitando as quedas da CACHOEIRA DO CAMPO.
Falarei agora da nossa justiça. Chegou um JUIZ DE FORA, chamado EWBANK DA CÂMARA, para ocupar o lugar de BIAS FORTES, que terminou o seu mandato. Mas o CONSELHEIRO LAFAYETE, acompanhado de RAUL SOARES, pediu ao GOVERNADOR VALADARES para interceder junto ao PRESIDENTE BERNARDES para efetivar naquele cargo o SENADOR FIRMINO,que muito fez por nós. Ele foi DESCOBERTO ainda novo, tanto que sequer usava sapatos, usava ALPERCATAS, quando estava na companhia do CORONEL PACHECO, na famosa LAGOA DA PRATA, depois daquela GOIABEIRA e daquela árvore JANAÚBA da fazenda POUSO ALEGRE, onde tem aquela VARGINHA, às margens do RIBEIRÃO VERMELHO.
Quanto à lagoa a que me referi, dizem que ela contém ÁGUA BOA, tanto que o CÔNEGO MARINHO teria se curado dos seus males tomando banho nela, por isso passou a ser chamada de LAGOA SANTA. Dizem que um cego também lavou os olhos naquelas águas e voltou a enxergar, mas ele atribuiu esse milagre a SANTA LUZIA.
Outro dia encontrei o BETIM e a MARIA DA FÉ nadando nas ÁGUAS FORMOSAS da LAGOA DOURADA, e lhe mandaram lembranças. A lagoa fica nas terras de PEDRO LEOPOLDO, onde ainda tem mais SETE LAGOAS. Também lhe mandam um grande abraço o DIOGO VASCONCELOS e o JACINTO.
Agora vou lhe contar as fofocas. O FRANCISCO SÁ teve um desentendimento com o NACIP RAIDAN por causa daquela LAJINHA que faz o SALTO DA DIVISA das terras dos dois fazendeiros com as terras da MARIANA, às margens do Rio PARACATU, porque dizem que ali tem muita MALACACHETA. A coisa andou quente. Um deles, não sei qual, queria agredir o outro com um MACHADO. Ainda bem que o coronel MATEUS LEME chegou na hora e evitou o PATROCÍNIO de uma morte desnecessária e ainda promoveu uma NOVA UNIÃO dos dois.
Os índios AIMORÉS tentaram invadir a reserva dos índios MAXACALIS, armados de ARCOS e flechas, por causa daquela reserva de JEQUITIBÁ existente naquele MONTE VERDE, mas, felizmente, foram contidos pelas tropas da Polícia FLORESTAL comandadas pelo MAJOR EZEQUIEL, evitando um massacre sem precedentes.
Ah, o ELÓI MENDES me contou, confidencialmente, que o CARLOS CHAGAS está de caso com a CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS. A CÁSSIA, que é muito linguaruda, contou para a mulher dele, dona CRISTINA. Mas a dona MERCÊS, que é muito benquista por todos, conseguiu convencê-la a não tomar essa medida EXTREMA, e lhe propôs que aguardasse a chegada do seu primo, MARTINHO CAMPOS, que é um homem de mãos de FERROS, para ouvir o seu conselho. Ele, que é espanhol, achou que seria uma missão muito ESPINOSA, mas ainda assim aceitou o desafio. Ele sugeriu ao marido que pedisse PERDÕES à sua esposa, na presença do PADRE PARAÍSO, e assim foi feito e tudo teve um BONFIM.
Depois desta CONTAGEM dos fatos, damos graças a SENHORA DOS REMÉDIOS, SANTO ANTÔNIO DO AMPARO, SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO, SANTO ANTÔNIO DO GRAMA e SÃO TIAGO, que têm sempre protegido a nossa família, para que nossas lutas tenham sempre um BOM SUCESSO.
Terminando, receba um forte abraço do seu primo, MATIAS CARDOSO, que lhe escreve do lugar mais aprazível que há, SERRANÓPOLIS DE MINAS.
Lugar mais aprazível que há posted by DÉLIO PINHEIRO at 6:44 PM
“Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade” Machado de Assis
O nascimento da crônica pode ser tecido por uma trivialidade, assim publicou no jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, o Bruxo de Cosme Velho, Machado de Assis, em 01/11/1877, mas esse, com licença da verba, era o Cara, ou melhor, “é o Cara”. (Obama não é o inventor deste jargão que já é popular). O Bruxo de Cosme Velho, alquimista da palavra fazia de um carunchado bago de milho, pérola. Vivia ele sempre antenado-plugado e afiado em ironias e em retóricas. O Machado dizia que a crônica é mais antiga que as personagens bíblicas. Muito anterior a Esdras. Segundo o mestre, certamente, a primeira crônica se deu quando duas vizinhas toparam para debicar banalmente sobre o calor que fazia num certo dia. Acredito eu, sem querer destronar o Bruxo, que uma dessas vizinhas era nada mais, nada menos que Eva tricotando sobre “o preço da maçã”. Até hoje em dia pagamos por esse tal preço assomado bem mais pra frentemente, (como dizia o nosso saudoso Odorico Paraguassu) pela dívida externa contraída pelo sabichão Rui Barbosa junto aos banqueiros internacionais. Já, lá naquele remoto paraíso fiscalizado pelo implacável Deus, já existia pelo menos um fato de extrema importância para redigir uma crônica: “O Preço da Maçã”. Que me adesculpe o velho Machadão. Aqui, não sou aroeira, mas posso muito bem agüentar pancadas. Que venha a lâmina da severa retalhação!
Escrevo trivialidade. Essa é a tábua de minha salvação, pois escrever literatura é um briquitar custoso por demais. Difícil. Ainda bem que existem a banalidade para esbaldar-me. Tenho consciência, mas não competência para dizer coisas que a palavra não suporta. Portanto, falo de literatura sem precisar feri-la no cerne. Sei que a literatura jamais foi apaziguadora. Muito pelo contrário, é uma arma libertadora buscando o sopro de vida. Desejo ser a pele das árvores e do chão. Sentir o sentido do mestre zen, Caeiro. Nada mais. Não pretendo deixar em pulvis nenhum catedrático literário. Não sou cupim. E, pérola literária jamais é carcomida. E literatura é pérola que eu nunca ousarei lapidar. Ela é luz que parece cegar a gente, mas, pelo contrário, é uma exímia abridora de enxergâncias múltiplas. Quero mais é escrever sem ir de encontros com os literatos. Só sei que a literatura não serve para exemplificar a língua, nem tampouco serve para analisar a lógica na língua. A literatura é mistério através da palavra monovalente, prismática e cadeiloscópica. Enquanto que a literatura escapole dos limites da palavra, pois o espaço dela é mesmo o exercício da liberdade, da transgressão. Os meus escritos nunca hão de sair da palavra plana pois me falta o fecundar de uma língua nova, me falta um grande salto em ousados riscos. Literatura é isso, um salto muito ariscoso e ousado. Tenho palavras curtas.
Dizem que depois de Dante e Virgílio, mais nada de novo. Sei não. Aequiparat factum nobile velle bonum. Escrevo apenas pelo ímpeto da vontade. Pelo gostar de escrever. Sei que careço de vicissitudes. Lapidando a palavra não sei sair do lugar-comum como fazia o meticuloso Graciliano Ramos que parecia lavar as palavras, batê-las numa grande pedra, quará-las e enxaguá-las diversas águas até ficar no ponto de secá-las para produzir um texto bem enxuto – e nem tampouco sei “catar feijão” como fazia o João Cabral.
Todo leitor deve ficar sabedor que o eu lírico de cada texto não é o mesmo eu-pessoa-física de quem o cria, não. Já ouvir dizer que certa vez o consagrado Djavan fez uma música belíssima, romântica, sentindo uma baita dor de barriga. O Caetano, outro exemplo disso, belamente, nele foi encarnado um eu lírico fêmea em “Esse Cara”. Assim por diante. Arrematando, o meu eu lírico não é o mesmo eu damiônico. Não sou nenhum pauliceianodesvairadense nato. Nasci mermo nas catinga, bem aqui onde, harmoniosamente, vivem de parede-meia os vales do velho Chico mais o Jequitinhonha. Profundamente, não conheço Brás, Bexiga e nem Barra Funda. Não sou chegado a Laranja da China e sou mais a lira serranopolitana que a paulistana:
“Água do meu Mosquito,
Onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...”
Mas nem por isso o meu eu lírico deixa de exaltar Sampa como se ele tivesse aflorado à flor daquela paragem, terra da garoa e por força de um destino desembestado, sem rédea, exilado aqui neste ermo Terra de Pindorama: Lá na minha terra tem Palmeiras
Que confronta cuns Gambá!
Os homens que aqui futeboleiam
Não gingam como os clássicos de lá!
Lá, eu morei em Jaçanã,
Lá, eu perdia o trem das onze
E não esquentava com o amanhã
Pois é de noite que a vida ferve lá! (...) saudosa maloca, maloca querida (...)
Aqui, nada acontece no meu coração,
Lá, é minha terra é também de um Oswald fanfarrão, esse soldado do modernismo que não pede pra sair das rodas de prosas literárias pois é um exímio linha de frente em combates vanguardistas!
Lá, tem a Semana de 22, (um belo marco dependurado na parede da memória).
Aqui, sem número representativo, enfadonha, a semana não é de ninguém, e, no estado de inércia parece morar!
Lá, (...) os meus pés enterrem na rua da Aurora (...) berço de um Mário minucioso, esse benfazejo esquartejador-visceral da cultura popular!
Solitário, aqui, eu na tenho me achado
Neste ermo de sertão sem consolação
Que tanto assusta.
Lá, tem bonde, Gaetaninho, Brás, Bexiga,
Barra Funda, Alcântara Machado...
...Angélica, Aurora dama da noite Augusta,
Viaduto do Chá, lá!
Cá, camomila
Não vai me acalmar!
Escute e anote,
Lá, na minha terra
É a terra da coroa
Procurando qualquer frangote,
Vegetando, aqui, eu não me agüento,
Lá, tem correria dos mano,
e caloroso engarrafamento,
Paraíso é lá, lá!
Huumm... bom retiro aprazível...!
Profundamente, chego a suspirar!
Maas... morro de medo
De morrer tão cedo
E lá, nunca mais voltar!
===XXX===
Pulvis: pó
Aequiparart factum nobile velle bonum: A boa vontade supre a obra
Uma pequena observância: no linguajar futebolístico paulistano, GAMBÁ refere-se ao time do timão.
Outra observância: conhecendo “... Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura frande os frutos de ouro... Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir!” (Goethe), provavelmente, Gonçalves Dias (Coimbra -1843) criou a Canção dele. De lá pra cá brotaram outras muitas intertextualidades como as dos mineiríssimos Drummond, Cacaso e Murilo Mendes, assomadas com as de Oswald de Andrade, Chico, Vinícius, José Paulo Paes, Ferreira Gullar, Mário Quintana, Casimiro de Abreu, dentre outras, e, tomado de uma buliçosa ousadia inventei também a minha Canção intitulada: Lá Onde O Meu Umbigo Está Enterrado.
Diretamente da comunidade Lagoa, Serranópolis de Minas, obviamente, MG – o Poeta do Acaso – Damião Cordeiro
Terra de Minas posted by DÉLIO PINHEIRO at 6:40 PM
Moço, ser caipira de verdade não precisa vaidade nem ter grande ambição. É não ter que dar ponto sem nó, nem ganhar tudo no gogó. É dar conforto ao coração. Pr’um caipira combinado é combinado, nunca dá pulo errado, nem promete o que não pode. Acostumado a levar vida simplória não conhece promissória, vale o fio do bigode. Me chamam de caipira, de bicho do mato. Me acham esquisito, tiram um barato. Mas eu sou daqui do mato. Armo a minha rede junto ao meu regato. O caipira não acredita em promessa, não sai de casa com pressa, nem muda seu trivial. Todo dia prefere levantar cedo, da lida nunca tem medo, seu dispor é natural. Acredita sempre em Deus e na melhora, reconhece que a vitória nunca vai cair do céu. Seu semblante tem cara de esperança, só onde o braço alcança pendura o seu chapéu.
Harmoniosamente, escrevância e cantoria casaram-se de um jeito simplesmente ímpar: Linda Marcelle Cordeiro & Welton Nogueira de ALMA SERTANEJA; ambos, serranopolitanos!
Os compositores Damião Cordeiro (O poeta do acaso), Welton Nogueira DE ALMA SERTANEJA e Linda Marcelle Cordeiro agraciados pelas princesas Ludi, a pequena Bia e Gabi
No dia 3 de dezembro de 1918, nasceu na cidade de Condeuba no estado da Bahia uma linda menina que no batismo recebeu o nome de AMÉLIA. No dia a dia com a família e os colegas, acabou recebendo o carinhoso apelido de vó DODA.
Apesar das dificuldades e da falta de uma boa escola, ela aprendeu a ler e escrever.
Casou-se muito jovem e esse foi um sucesso que durou 50 anos. Separou do esposo devido ao falecimento.
No casamento concebeu 17 filhos, 56 netos, 68 bisnetos e 1 treta neto.
Amélia, (esposa, mãe, vó e amiga), enfrentou grandes dificuldades financeiras, mas foi rica na fé e na confiança em Cristo Jesus.
Mulher guerreira que não temia em lutar pela vitória.
Apesar de dona de casa, ela tem muitas qualidades. É amiga de todos, era biscoiteira, bordadeira, fiava em uma roca de madeira os fios de seus próprios cobertores. Fazia esteira e vassoura de folha de palmeira. E, ainda hoje, mulher rendeira.
Gosta de se divertir em festas, jogar baralho com a família, contar piadas e anedotas.
Até hoje eu a vejo menina sapeca que ao fazer suas caminhadas colhe flores nos jardins e em cima dos muros, colocando-as nos cabelos, sente-se feliz, vai em frente, chega em casa radiante.
Eu te digo, vó DODA, que a felicidade é toda nossa.
Este prêmio foi Deus que nos presenteou.
Neste instante dizemos a Deus: obrigado Senhor, por este grande prêmio e dizemos também a você vó DODA
Parabéns!!!
Nós todos te amamos!!!
Carinhosamente, Adelaide Cordeiro – escrevedora serranopolitana. DEZ/2008
NOTA: Amélia Aguiar Cordeiro, uma baiana que morou em Serranópolis de Minas entre os anos de 1928 e 1981. Por empréstimo, hoje, aos 90 anos, uma montesclarense lúcida, mas seus pés estão fincados na raiz de Jatobá!
Vó Doda e Ludi posted by DÉLIO PINHEIRO at 6:36 PM
O vento, tão incerto e poderoso
Rompe as distâncias desde o Gerais
E burila as sempre-vivas espalhafatoso
Espalhando vida a homens e animais.
O arquejante burrinho, tão pedrês, resfolega
No caminho pétreo, sem olhar para trás
Com suas gomas e bebidas para adegas
Vindas do lado de lá, dos canaviais.
Sua travessia até o comércio é uma epopéia
Quando o vento assobia no tronco da madeira
Em seu dorso o geraizeiro tem uma idéia
“Que bom seria se não existissem tantas ladeiras”.
Mas elas existem, feito assombrações, aqui e acolá
E os barrigudinhos famintos esperam no pé da ladeira
Que virem balas sortidas os negócios do pai em Jatobá
E que lhes traga roupas para a festa da padroeira.
Délio Pinheiro
FASES FACES DA FRASE
“É o último homem...”
Da linha de impedimento?!
De sua vida?!
Desta noite?!
Interpelação única e não arbitrária para o ajuizado bandeirinha que mesmo sem querer amargar contragostos, trai anseios de massas antagônicas. (Porque não fazer vistas grossas para o nosso perigo de gol?!). Bandeirinha, juiz de fora das quatro linhas, homem esse de vida difícil que carece ter muitas mães, mães de nomes bonitos e bondosos para qualquer ocasião de emergência existencialista. Sujeito esse que, espavorido, toma solitárias decisões sem levantar convicções certeiras. Esta mesma indagação é dirigida à viúva que terá vida fácil a partir da primeira parcela da pensão obesa. A partida do cônjuge dela, velho, de vez, a tranqüiliza em alva viuvez. Nada serve o oculto com chifres reluzentes!
Eis que não gema do casamento, era assim, tudo às claras, o conjugue dela tinha a destreza de fixar o pé em dois estribos. Viúva essa, impassível, em poses esponsais, assim, bem comportada no grande círculo da moral e da ética. Fora sempre companheira fiel. Modelo de esposa. Sem aleivosia em despejos lacrimais, sem nenhum alvoroço teatral. Mulher seca, alta, feito varapau de mandacaru, ali, sentada na cabeceira do paletó de madeira onde deságua a vida de seu único e legítimo macho. Mesmíssima e tri-única indagação também dirigida à desmiolada dama calada na noite, expulsa do grande estadium ético, fêmea imoral, mal falada, essa que lambe migalhas monetárias e que tem o prazer de colecionar orgasmos fingidos e parceiros descartáveis. Essa é munida de poderosa sagacidade para derrotá-los; fura-lhes não só os famintos olhos esbugalhados, mas também, os míseros bolsos murchubentos. Fundos. Dama da noite absolutamente negra. Pobre diabinha lépida, gênese de escárnios e maldizeres. Mulher da vida difícil. Mulher do centro da aldeia sob alheia e cerrada vigilância. Mulher-Geni, de ponta de rua. Da rabeira do mau amor.
Damião Cordeiro, o poeta do acaso
Dobradinha de estilos e de autores, Damião e Délio posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:17 PM
Ser tão sertão,
Sertão ser tão,
Ser Manuelzão,
Ser Miguilim,
Ser Zé Côco do Riachão,
Ser tão do sertão.
Ser caboclo, alimentar-se do sertão,
Do pequi, do umbu
Ser tão sertão!
Como os tatus nas capadas,
A barulhada da passarada nas veredas...
O rastro da gata suçuarana...
E o medo disfarçado em uma estória do sertão...
Ser tão mineiro,
Ser tão geraizeiro,
Ser tão catrumano.
Sertão ser tão,
Ser tão nosso,
Ser tão encantador,
Ser Homem feito o irmão de Henfil,
Ser tão grande,
Ser tão encantador,
Ser tão puro,
Puro sertão,
Enfim ser tão do sertão,
Assim como nós uai!
Ana Amelia dos Santos Cordeiro
Poetisa do Sertão
Flagrante no Talhado posted by DÉLIO PINHEIRO at 9:57 PM
Mãe: ‘Amélia mulher de verdade”
Que belo dia
Todos comemorando seus 90 aninhos
três de dezembro deveria ser feriado internacional, pois neste dia se comemora o aniversário da pessoa mais importante do planeta
(Amélia de Aguiar Cordeiro), Sabe mãe, você é um exemplo a seguir,
Mulher heroína, brava, combatente e apesar das dificuldades, vencedora. Foram tantas as batalhas!
Somos privilegiados da mãe que temos,
tentamos de copiar, fomos aprovados em alguns seguimentos e fraquejamos em outros,
Exemplos como estes, não podemos deletar (excluir),
que serão úteis aos nossos filhos e netos.
Não esqueço a infância do seu lado, mãe,
À caminho do rio, como formiguinhas, carregando água para molhar as plantas e encher o barreiro dos porcos, (enorme),
Pescando com rapa de arroz, ao areiar as panelas
Pegando estercos e adubos orgânicos para hortas, de onde tirávamos o dinheiro para compras de fogos, roupas pras festas juninas e de Serra Branca, lembra?!
Das confecções das esteiras de palhas de coqueiro
Das colorações de linhas para tecer cobertores
Das cantorias junto à roda de fiar
Das colheitas de pião, para fazer sabão
Das rendas, (ainda em atividade),
Das pequenas fabricações de fumo de rolo que ajudavam no sustento da família
Das lamparinas e fogareiros
Das grandes enchentes do velho rio Mosquito
Dos passeios, com saídas sigilosas para não fossemos vistos pelo vizinho,
Principalmente, ao escurecer, quando nosso querido pai chegava com aquele saco de melancias e de milho verde, onde esperávamos de braços abertos.
Éramos pobres, mas muito felizes. Olha mãe, não dá para descrever tudo tudo que lembro e que sinto por você!
Simplesmente: TE AMO MUITOOOOOOOOOO!
Jaime Aguiar Barbosa: mais um considerado escritor serranopolitano!
Frase do escritor Osvaney Barbosa, autor serranopolitano ainda inédito neste blog posted by DÉLIO PINHEIRO at 7:12 PM
Certa vez, Oscarino Aguiar Cordeiro – o poeta do grotão – foi homenageado pela “Escola Estadual Ananias Alves”, onde estudou no início dos anos 60. Lisonjeado, esse, derramou estas nostálgicas linhas bordadas de agradecimentos...
ESCOLINHA
A muito tempo que aqui cheguei, você era ainda adolescente, e eu tinha apenas doze anos. Você não tinha o amadurecimento para enfrentar este mundo em que vivemos, mas teve a humildade de procurar a se restaurar diante das necessidades de nosso povo.
Andei com você em alguns lugares do nosso pequeno Serranópolis, até chegar a este seu patrimônio onde enraizou-se como um jatobá às margens do rio Mosquito. Fui seu discípulo em tudo que ocorreu durante cinco anos. Apesar da timidez de um aluno pobre, era eu um dos alunos escolhidos para declamar poesias nos eventos em que você realizou. Alembro da primeira vez em que consegui escrever o meu nome, da minha professora Germana (Maninha), da diretora dona Alvina e o seu próprio nome: “Escola Reunida Ananias Alves”. Tudo isso eu tenho como lembrança de um princípio de um aprendizado para enfrentar os problemas do dia-a-dia. Tenho em mente os lances dos jogos de bola de meia lá no terreiro do fundo, com os desafios das classes: primeiro ano versus o segundo, segundo versus o terceiro e terceiro versus o quarto ano, que criavam um buliçosa expectativa nos torcedores de todas as classes. Quando chegavam as professoras, deixávamos tudo e corríamos para as salas de aula, todos suados e levando para dentro das salas, parte da poeira do terreiro, naqueles pés estalados pelo frio das manhãs junto ao pó da estrada, nas passagens dos rios.
Alembro do meu primeiro uniforme de calça azul na altura dos joelhos e camisa com a seguinte legenda: “Escola Reunida Ananias Alves”. Tenho certeza que fui um aluno muito querido das minhas professoras: Maninha, dona Zezé, Maria José Leles, dona Maria Teixeira e dona Zita Alves (in memorian) e as diretoras dona Alvina e dona Zita, todas já se despediram desta para uma outra vida. Nesse longos 60 anos acredito que fui entre milhares de alunos, um destaque em tudo. Melhores notas, comportamento, contando, é claro, com outros estudiosos que também sentaram aqui nestas carteiras. Hoje sentimos a ausência de muitos que já foram, mas contamos com a presença de pessoas competentes para continuarmos a caminhada como professores, diretores, funcionários e alunos. Tenho certeza que este quadro de pessoas está preparado para o bom desenvolvimento de nosso município, Serranópolis de Minas. O mais importante é que você cresceu sem que eu percebesse e eu também cresci em conhecimentos, gostaria de somar com você e fazer que o nosso povo também cresça rumo a um futuro melhor, e, que juntos construamos uma nova sociedade!
Oscarino Aguiar Cordeiro Lembranças da infância do poeta Oscarino posted by DÉLIO PINHEIRO at 7:09 PM
Ele dizia falar outras línguas, entre elas o francês e o tupi guarani. Ele citou frases de Confúncio quando falava sobre a vida natural que levava na serra. Ele dizia preferir a companhia da natureza à dos homens. Ele foi o eremita que conhecemos quando fomos fazer um documentário na Serra do Talhado, em Serranópolis de Minas. Ele vivia em diversos ranchos de pindoba espalhados por uma longa extensão de mata. Ele se mudava sempre em busca de seu sonho: enriquecer. Ele era garimpeiro e durante 11 anos viveu naquela serra majestosa. Ele, apesar de sua vida ermitã, ouvia rádio na solidão da serra: CBN, a rádio que toca notícias.
De vez em quando ele dava um pulinho em Serranópolis, afinal ninguém é de ferro. Ele sempre levava consigo cachaça e outros mantimentos menos urgentes. Ele chegava a passar meses sem ver ninguém, perdido nos altos bastiões da serra. Ele nos mostrou duas músicas que criara na solidão. Sim, ele tinha na viola uma companhia nas noites de lua, e sem lua, e chuvosas, e abafadas. Ele criou uma mulher invisível com a qual conversava e fazia sabe se lá mais o quê. Ele nos disse que havia sido comerciante em Belo Horizonte e que possuíra duas lojas, carro do ano e uma vida abastada. Não, ele não nos disse a razão de ter abandonado tudo aquilo. Uma decepção amorosa, algum crime, apenas supúnhamos enquanto ele dizia que conhecia mais de 20 estados do Brasil e que já vivera com os índios cintas-largas. Disse também que tivera muitos filhos e que todos haviam se formado. Quando perguntado sobre o porquê da vida de eremita ele foi lacônico ao dizer que tinha um ligação com os tempos em que fora policial. Apesar de ser uma pista isso não esclareceu muita coisa. Ele era incrivelmente articulado e bem informado. Sobre o governo Lula disse que não esperava muito. Sobre a vida, pretendia viver ali, no meio do mato, com sua mulher invisível, em busca de um valioso diamante. Apenas isso. E foi assim que nos despedimos dele naquela tarde de sol forte, cientes de que tínhamos uma nota 10 na disciplina de antropologia e muita história pra contar.
A esta altura você deve estar se perguntando: o que aconteceu com o eremita? Pois bem, um belo dia ele acordou no meio da serra e juntou suas coisas. Pôs sua viola no saco e pegou a estrada. Passando por Serranópolis, sorridente, foi até a venda onde sempre comprara cachaça e deixou um agrado em dinheiro para o comerciante e disse que estava voltando para Belo Horizonte. Isso mesmo, depois de quase uma dúzia de anos naquela serra ele simplesmente se cansou da natureza, assim como um dia se cansou dos homens. Já no ônibus que o levaria para Belo Horizonte ele tirou sua viola do saco e começou a cantar uma de suas músicas. E lá foi ele, cantando as saudades de seu amor imaginário e levando um graúdo diamante em meio aos seus pertences puídos.
Gárgulas que velavam a solidão do eremita posted by DÉLIO PINHEIRO at 12:50 PM
“Vou contar para o seu pai que você namora/ Vou contar pra sua mãe que você me ignora” – RENATO TEIXEIRA
Para dar rédeas curtas e minha frondosa sombra fresca, jamais tive a proeza de encabrestar a potranca que, doidamente, eu amava sem freio. Eu visitava mandingueiros e igrejas. Eu tecia rosários e mais rosários de promessas, acendia muitos botes de vela em pedidos fervorosos para que ela ficasse presa no laço de meu amor.
De sempre em sempre ela vinha metida dentro de vestidos indecentes e provocadores. Cevava com minha comida, bebida e bondade. Atiçava o meu fogo. Ascendia minha paixão. Jurava para mim fidelidade e eterno amor, mas em seguida caía em contradição e em braços alheios. Fiquei acorrentado nessa agonizante tortura um bocado de ano. Ela vinha e ia cheia de sedução avassaladora. Certa vez, sem eu saber o porquê, suas idas e vindas, bruscamente, estancaram-se por alguns sofríveis meses. Num belo dia primaveril, ela apareceu com feições angelicais, vestida de moça decente, seu vestido roçava nas canelas, não apresentava escândalo, tampouco delírio-delícia para os olhos meus. Não encenou o ritual costumeiro, mas intensificou a tortura com muito gosto, pois, propositadamente, intimou-me para testemunhar o enlace matrimonial dela, parente a lei divina, a lei dos homens, enfim, para todos os convidados presentes. Na expectativa que na hora agá ela mudasse de idéia, fui fantasiado de futuro marido, até, fervorosamente, agarrei-me na hipótese de que o pretendente felizardo não a amava completamente, portanto, não poderia concretizar o matrimônio, sem amor íntegro, recíproco. No altar, ela estava lindamente linda. Ignorou-me de vez. Tinha olhos somente para o seu amado presente/futuro esposo. E como brilhavam dela. Combinavam com os meus. Para não manchar de rubro a alvura do taffetá, selei meu testemunho com uma assinatura estupidamente trêmula. Não teve trabalho de encruzilhada e nem São Judas Tadeu que dessem volta.
Damião Cordeiro, o poeta do acaso
Estrada dos tropeiros no Talhado posted by DÉLIO PINHEIRO at 12:30 PM
“Noite escura o inspira e lhe devora/O sertão aflora na garganta do cantador” – VIAGEM DE MATUTO, de ALMA SERTANEJA
A tarde cai. Cai fatigada na boca da noite esfomeada por estórias. A noite negra engole ferozmente as casas de varandas amplas e arejadas, os quintais de arvoredos sombrios e os roçados promissores dos cabôco. A noite engole tudo e todos. O sertão torna-se perigoso para quem não o teme, e guardião da moçoila mais o rapazote que se enroscam qual cipó de “unha de lagartixa” na quixabeira troncuda entretendo voluptuosamente sem maiores rumores, (os monossílabas e os sussurros mais afoitos são abafados pela mão zelosa dos bons modos), na janela confidente do eitão do velho casarão docemente naufragado no mar negro do silêncio. Mais tarde a lua gorda acorda do dorso da Serra do Espinhaço, bem próximo da “Gola de Camisola,” Pra quem está aqui embaixo nas catinga, (mais precisamente em frente desta modesta morada de Osacarino e Ana onde oferece para os paladares, um afrodisíaco licor de jenipapo e cabrito levado ao abrasado forno de lenha), e escala com o olhar contemplador o majestoso paredão rochoso, rumo ao Sitim, lá parriba no Gerais, ver claramente no feitio da depressão serrana, um molde delicadamente feminino, cosido pela mão caprichosa da mãe natureza. (Foi minha mãe quem deu esse nome: gola de camisola). Então, como eu ia pincelando o quadro da estória, mais tarde a lua gorda acorda da cacunda da imensa pedrona e se espreguiça preguiçosamente se arrasta pelo céu apunhalado por milhares de estrelas pontiagudas. As folhagens da mata densa onde arrancha a curupira coa a lua em fios de nata. Suas sombras figuram-se em espantalhos horrendos. As corujas “rasga-mortaia” e os curiangos “amanhã-eu-vou” retalham a noite em cantos tristes e amedrontadores.
Um pingo de luz aqui, outro acolá; são os candeeiros de azeite de mamona. Grudada na fumaça pitada pelos pavios dos candeeiros sobem as mais belas e também as terríveis estórias de amor e de ódio travadas entre o bem e o mal. O belo, o feio, o encantado, a desgraça e a fortuna fertilizam a imaginação de cada sertanejo. Surgem estórias de castelo todo de ouro, de rainhas e reis maldosos, de serviçais cupidos e de amores proibidos entre príncipes e princesas de reinados inimigos. Florecem também estórias de feiticeiro e benzedor que no tempo da quaresma vira lobisomem e sai na vizinhaça surrando e comendo animais récem-nascidos, de “gritadô” que surra a assombra cachorros no meio do mato, acabando com a caçada de tatu, de Mãe-d’água de sorriso conquistador que seduz e some com os homens bonitos que acreditam em ganhar o tesouro das profundezas do poço encantado, de bruxa que faz estribos na crina do cavalo e galopa em gargalhadas pelo pasto afora, enfim, por toda a extensão do Vale do São Francisco... Isto que é sertão. Tudo é sertão. Tudo é mistério nas travessas de rios, capões de mato, nas encruzilhadas, nas curvas das estradas e nas frestas de pedras e de árvores onde brotam “coisas” que avoam de boca em boca. Todo mundo conhece o mundo do sertão, suas trilhas e também os seus atalhos. O sertão está por toda a parte, não tem fim, e nem tampouco suas longínquas estórias...
Melindrosa. Parece ser de louça a ausência de amor, a não degustação nos valores das inutilidades, a não degustação da compreensão e do perdão. O rancor e a estupidez reproduzem feridas não cicatrizantes n’alma de todo ser que não está verdadeiramente com Deus. A falta da arte empobrece o homem, roubando dele as riquezas mais simplórias, doces e as mais sinceras. Faz o mesmo a acirrada corrida pelo ouro, pois existe uma grande alienação do trabalho árduo aos valores materiais.
O tempo é irreversível. Todo animal (inclusive o homem) brota, cresce, desenvolve, entra no cio, acasala, menopauzêa, brocha e retorna ao pó. O tempo da maçã é o afloramento dela, o crescimento da massa, o amadurecimento e o apodrecimento.
O sonho e a fantasia são indispensáveis à vida social. É preciso tê-los como adjutório no dia-a-dia. O tempo da borboleta colorida que desliza diante retinas minhas desatina bulina criação, onde posso desvairar em rabiscos singularmente poéticos. Gosto muito da frouxidão das palavras e do tempo ocioso. Valorizo a vagareza do carro de boi no seu cantar majestoso, agudo, contínuo, sem pressa da rouquidão chegar. Aprecio o arregalamento da boca da noite desdentada que me engole e vomita causos um tanto quanto curiosos, (coisas de argum tempo. Tempo dos mais véi. Do tempo da revolta, do tempo de Arabel e da jagunçada braba que conseguiu atravessar o Liso para alcançar Hermógenes. Coisas do tempo do carrancismo que fecundam arrepios passageiros no meu matutar viajante). Aí ribuço-me por inteiro, dos pés à cabeça, com o cobertor artesanado com a melhor lã de dona Rosa de Seo Liozino, tecelã de grande prestígio em todo o vale do rio Sanharol, adormeço e tudo acaba sereno no raiar pelante do sol e no rachá-baruiá do machado amolado na cacunda do pau de lenha frio de medo de se queimar. História roceira, bonita, brejeira, mais bela e muito mais light que as tecidas lá nos grandes formigueiros humanos ou desumanos, como queiram chamar esse tipo de montueiro desorganizado batizado a ferro com o nome: gente civilizada...
Dedico este escrito para os poetas Ferreira Gullart e Oscarino Aguiar Cordeiro, meu pai...
ÁGUA BENTA ARDENTE E nessa casa tem goteira Pinga nim mim – Elias Filho
Em mil novecentos e sessenta e nove houve dois grandes acontecimentos que marcaram a história mundial. O segundo o grande feito foi a conquista da lua pelo homem, depois de séculos de nostálgica paquera. Nessa época os donos deste País tapeavam mentes e estômagos de mais setenta milhões de pessoas e em qualquer terreno a seleção armava o circo e comia a bola. O primeiro grande episódio foi o meu brotamento nesta espinhenta e tortuosa caatinga pobre, rala e seca. Nasci morto-vivo, bem debilitado mesmo, primogênito e prematuro e gêmeo. Signo: gêmeos. Mas isso não leva ninguém a canto nenhum. Apenas traz baixo astral quando faz previsões negativas e ilude quando tira os pés da gente do chão firme para flutuar em fantasias irrealizáveis. (Isso é para quem bota fé em bestices).
Naquele cafundó, lonjura de sertão, não era que nem agora, não. Hoje em dia que a mudernage cuida de encolher o mundo cada vez mais. No dandá da evolução vagarosa tudo tudo deferençô. Do carro de boi... do carro de boi... pro cavalo encilhado no viagêro... ...pro galope arfante... pro jeep, pro de pau-de-arara e até mesmo pro ônibus sertanejo. Naquela ocasião não tinha esses ricurso de hoje, não. Havia não.
Encucado e apressado, papai riscava esporas sangrentas nas ancas volumosas do cavalo dele, em disparada, sob rédeas frouxas e chibatadas apimentadas, na poeirenta estrada boiadeira, rumo ao um patrimozim chamado Porteirinha. Assim, longe longe. Ainda bem mais retirado que o meu pequeno Jatobá. Aliás, para o pobre tudo é longe e dificultoso. Esse lugar era arredado léguas e léguas donde eu tava sendo vigiado, prostrado num catre de cedro cruzado com correias de couro cru. Papai, coitado, corria e corria, porém, não sabia se comprava o elixir da vida ou aprontamento para anjim. Durante onze dias encarreados levaram vela acesa às minhas mãos. Padre e igreja, distantes. Meus avós maternos fizeram promessas para eu escapar da dentadura da morte, ofereceram-me aos santos de terreiro, e em troca batizaram-me com o nome de um deles, mas venci a véia da foice foi com uma memorável baforada de cachaça geraisêra para revigorar os filtros dos pormão. Esse acontecido imortalizou-se nas cacholas de todos aqueles que tavam ali me arrudiano, assistindo minha saga final. “ES-SI MI-NI-NU TÁ CUM FA-RO BÃ-AO,” soletrou no pau-da-venta de meu semblante promissor Seo Orozino, um velho sábio catingueiro nativo das barrancas do rio Sanharol que acudia qualquer tipo enfermidade, desde dum simples estrepe matriado até coiçada de burro brabo.
Esse ocorrido marcante oferece um saboroso pretexto para esbaldar-me de aguardente. Por isso que diariamente bochecho o dente com todas elas... da branquinha... da marela.... só para louvar a dádiva milagrosa vinda da crendice popular. Uma singeleza de realidade que nem a mais avançada das medicinas jamais ousou explicar!
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Escrito verídico. Quando eu era récem-nascido recebi uma baforada de cachaça geraisêra pra voltar minha respiração... senão, oh! ...necas!
Damião Cordeiro, o proseador do acaso... posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:17 PM
RUMINAÇÃO Palácio do Catete, RioÀ Jornalista Márcia Gibin
“Diz que rumino desde menininho fraco e mirradinho a ração da estrada” VIDE VIDA MARVADA – Boldrin
Navego neste Rio de muitas margens: Rio da garota de programa, da Rocinha, onde se planta preconceito e colhe bandidos e colhe marginalizados. Rio de Copacabana, de Vigário Geral, do turista, do Morro do Alemão, do Pão de Açúcar e do quê-o-diabo-amassou... Rio de Rodrigues Alves que espremeu a pobreza e a negritude nas encostas dos morros cariocas. Rio dos fanqueiros dos clubes das esquinas, enfim, o Rio de asfalto e gente que entope o meio-fio, calçada, rua e entorna por todas as ladeiras da exclusão social. Lembrei de Milton/Lô/Márcio Borges.
No momento do agora embarco, remo neste recanto remanso importante da história sócio-político-econômica nocional, onde, outrora era de águas turbulentas e turvas, pois, daqui, o baixinho de São Borja, esse populista exacerbado, tapeava milhões de vulneráveis brasileiros numa das faces mais barrentas e antidemocráticas do País. Como os sonhos não envelhecem, tampouco se amedrontam com os golpes da vida, deslizo extasiado na maravilha de meu dia-a-dia. As meninas sapecas dos olhos meus saltitam radiantes de júbilo. Fico cá eu ruminando pensamentos desvairados. Ando à flor da pétala, comovido. Sozinho. Distante daí de Sampa e também de minha Serranópolis. `As vezes, as palavras verbais fogem sem querer... Aproveito este momento para conversamos assim tão calados e tão mudos e tão separados pelo espaço físico, mas, ungidos pelo enigma da escrita...
Não tenho sequer um motivo contundente para que eu possa retirar-me deste mundo pelas minhas próprias mãos, atirando negrume em meu peito que batuca encharcado de muitos anos-luz por luzir. Vôo vou polinizando-me à flor da pétala. A barba comprida e macia do deus fogo roça docemente as faces minhas. As folhas de meu diário não murcham com luminosidade poética. Muito pelo contrário: viçam. Estou devidamente emocionado pelo o brilho da vida. Vontades minhas revoam revoam mundo afora e regressam famintas por mais conquistas.
Estou inundado de ansiedade e doido para saber o resultado final do concurso literário da revista CULT, onde o nosso livro (digo nosso porque é realmente nosso não suporto ser o dono sozinho desta maravilhosa idéia, e, livro, é pra ver se pega mesmo), está no desafio de chegar em primeiro lugar e ser devidamente premiado, editado e divulgado por todo o Brasil inteiro, mas antes de tudo ciente da dificuldade dele sobressair sobre os outros concorrentes, pois, com certeza, esses também têm qualidades e estão confiantes no páreo. Corrida mais que acirrada.
Cá fico eu ruminando pensamentos solitários e embaraçosos, mergulhado em questionamentos. Elaborando indagações intrigantes só para ver se adivinho o estado psicológico dos juizes (as) no momento crucial de analisar os nossos trabalhos literários. Será que as situações sociossentimentais diferentes de cada analista têm algum peso na hora agá?! O que eles pensarão e sentirão no grande dia trará influência significativa na destilação literária?! Quem e quais serão os machos e as fêmeas que farão parte desse júri que averiguarão todas as obras?! Será que eles (as) terão saco para lê-as titim por titim,
detalhadamente, ou dissolverão o regulamento do concurso como se estivessem ainda na Era Vargas, desrespeitando as cláusulas e regras num estúpido sorteio anticonstitucional?! Será que o júri estará de bom humor ou de nariz torcido com a vida?! Será que os homens, esses juradores desconhecidos que farão parte da comissão de análise, no dia em que antecederá o grande dia, (pelo menos para mim será), estarão radiantes de felicidades?! Conquistarão as mulheres das vidas deles que passarão ligeiras, lavarão, cozinharão e de bônus ainda lhes oferecerão como sobremesas na calada da noite suas macias carnes cruas, apetitosas?! (não necessariamente nesta mesma ordem), passivamente sem resmungarem pelos serviços gratuitamente prestados ?! ...ou seus triângulos amorosos quebrarão por que as amantes obesas os trairão não indo aos encontros marcados e só por picardia, as esposas de belos corpos esculturais dormirão de calças jeans com o número aquém do ideal só para fazerem figas?! Desencontros não marcados dos encontros nas camas... As mulheres que também desconheço, será que no grande dia estarão com TPM?! ...amorosas?! bem light?! Será que elas serão trocadas sem enganos por outras menos
cronometradas e mais gostosas aos olhos profanos da virilidade?! ...ou brejeiramente, encontrarão seus fiéis príncipes encantados que jamais se transformarão em sapos asquerosos e que são fissurados em pererecas?!
Cá fico ruminando pensamentos vagos... Oh! Jornalista, és meu braço direito nesta missão, publicar o nosso livro. É maravilhoso receber também o apoio como do poeta Marcelino que está procurando para nós novos meios de divulgação. Obrigado mesmo, de coração! Desculpe-me. Ando muito comovido, à flor da pétala... poeticamente descrevendo-me, e, às vezes, no descampado da imaginação laço-me em devaneios já esboçando-me no discurso para a noite de gala, de premiação. Emocionado, entorno-me em lágrimas solitárias...
Resumo em palavras. Sinto-me numa agonia prazerosa, uma necessidade de escrever escrever e escrever cada vez mais e melhor (só para você se esbaldar de tanto eu, de tanto destilar-me), como se eu fosse assim uma espécie de eterno garimpeiro fundido em ouro e em bateia e imergido no rio-criação, buscando lapidá-me à perfeição do escrever...!
Damião Cordeiro, o proseador do acaso...
O cavalo marinho de pedra posted by DÉLIO PINHEIRO at 10:46 PM
PROVÁVEIS ACONTECIMENTOS EM MEU VELÓRIO “Morte, vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão
que já se vai” SENTINELA – Milton Nascimento/Fernando Brant
“Ainda vou beber a sua pinga” – assim, o cabôco pode muito bem respostar quando esse for caçoado por andar capenga, muito perrengue, mais pra lá do que pra cá e que, ironicamente, enfrenta a morte numa boa. Boa mesmo é pinga de defunto. já bebi muito defunto por aqui. Não essas pocaôi, mas das que vêm da banda de lá da serra: Serra Nova, Rio Pardo, Salinas... Pode ser que aconteça, não que eu queira, mas um dia hão de beber a minha também, pois, a morte é a finalidade da vida.
Aqui, nas quebradas deste sertão, desde os tempos de Jatobá ainda meninote, ajuntamento de rostos habitam em raridades: uma missa encomendada, uma reza de um terço, um leilão para acudir algum enfermo em extrema precisão. É por isso que sentinelas e até assistir agonias de sujeitos prestes a encantar-se são ótimas dicas para um bom bate papo com um amigo que o tempo apartava, e para inesquecíveis amassos. Alembro muito bem das agonias do solteirão Cândido Cabaceira. Enquanto ele fazia carretas finais em seu leito de morte, eu fazia gracejos no eitão do velho casarão mais uma donzela. Noites e mais noites, um sendo assistido e o outro, eu, dando assistências degustantes...
Não sou nenhum defunto autor como na alquimia do Bruxo de Cosme Velho. Tão cedo não quero ver a realidade comungando com a ficção, não. Mas... pode ser que aconteça, não que eu queira... se eu morrer amanhã, assim, tragicamente, atropelado pelo destino da má hora, uma avalancha de lágrimas frias, caudalosas, deslizarão pelas encostas de centenas de rostos bem familiar, conhecidos. Muitos rostos que beijei muitas vezes com amabilidade, com respeito. Outros tantos, com certa malícia. Ligeira volúpia. Muitos rostos esconderão para não ver o meu semblante carregado de palidez, pois ainda não inventaram maquiagem que pudesse tapear a morte, não. (Se morreu, morreu. Pronto. Fato consumado. E se formos aprofundamos em reflexões, iremos ao encontro de Dom Casmurro: “o interno não agüenta tintas”. Portanto, tudo envelhece. Morre. Acaba). Esses rostos que se negam a me ver, guardarão em seus álbuns de lembranças somente o meu retrato robusto, apresentável. Outros engolirão rios de lágrimas só para não transbordar ainda mais o escândalo choroso e muitos outros farão uso da sinceridade. Sisudos e estáticos, não encenarão nenhuma emoção minada na falsidade. Os rostos que hoje têm coragem de chicotear-me, amanhã, poderão sentir medo de um homem desvalido e desguarnecido que não consegue sequer mover um fiapo de pestana. Hoje, os rostos que lhes sou afável, mais que depressa sepultarão os meus dissabores,
rancores, desamores, sandices, mediocridades, devassidões e minhas promiscuidades, enfim, eles ocultarão rapidamente todos os meus erros e defeitos. Mentalmente, ilustrarão sobre minha cabeça bondosa, uma auréola brilhante, doirada. Toda a minha esplêndida boniteza interior e exterior virão à tona, à flor dos crisântemos em grandiosas coroas de flores de um colorido murcho, fúnebre, acompanhadas de faixas alvas alvas exibindo aquelas frases ridículas, tradicionais, sem o mínimo de criatividade poética, dolosas ao panteão dos poetas por excelência. Pelos cantos da tristeza, brotarão alentos, casos e mais casos comoventes sobre a minha meteórica passagem por aqui na Terra. “...Que Deus lhe dê um bom lugar...!”
Pode ser que aconteça, não que eu queira, mas nesse ajuntamento de rostos noturnos, saturante, detestado principalmente por mim, (seria agradabilíssimo se fosse uma patuscada numa Nigth Club Dance, e eu ali vivinho da silva, balançando minha caixa muscular, bebericando com mulheres maravilhosas, e de bem com a vida), servirá cafezinho para os sonolentos, pois um ajuntamento de rostos desse nível para a minúscula minoria não é nada animador, e chazinho de camomila para os mais alterados emocionalmente.
Pode ser que aconteça, não que eu queira, mas, muitos rostos que lá estarão, irão somente para namorar. Ponto de encontro de namorados para dar saborosas beiçadas. (Bom, por aqui, neste interior serranopolitano, nas localidades de Lagoa, Sanharol, Caboge, Caretinha, Brutiá, Carrapicho, Ventura, Pontal e em outras paragens circunvizinhas, exaustivamente, eu mesmo já namorei detrás de cerca de pé-direito nesse tipo de ajuntamento de rostos, se é que dar uns apetitosos arrochos fecunda cansaço físico ou mental a ponto de não mais querer. Particularmente, não vejo nenhum desrespeito ou desconsideração para com o morto, pois na verdade, a vida necessita mesmo resumir-se tão-somente ao amor ou pelo menos à degustação carnal, pois, como já é sabido, da matéria não se leva nada, não é mesmo, caro leitor amigo?!) Em ajuntamento de rostos desse tipo, muitos encontrarão a alma gêmea, namorarão, marcarão novos encontros e outros, simplesmente, brigarão, quebrarão as alianças.
Pode ser que aconteça, não que eu queira, mas aproximadamente quatrocentas jardas de mim, os mais empedrados sentimentalmente, durões, lógico, excluindo eu de ventas afiladas, “parriba, contando as têa,” farão animadas rodas de prosas, e uma saborosa cachaça navegará explicitamente entremeio de risos e gargalhadas espalhafatosas. As habituais estórias de assombração, de lobisomem e de gente que já partiu desta pra melhor (?!) são inevitáveis. Chegarei à crista da agonia quando florecerão aquelas piadinhas que debocharão defunto fresco. Chacotas ríspidas somente para mim, claramente direcionadas, exclusivamente, para mim. Matutarei.
Pode ser que aconteça, não que eu queira, mas nesse ajuntamento de rostos, surgirão estranhos que me verão pela primeira e última vez. Que felizmente não vou conseguir vê-los. Também, pra quê esticar mais ainda a saudade ou o aborrecimento?! Esses rostos desconhecidos farão indagações indigestas, recheadas de exclamações inoportunas e inconvenientes nessa hora chorosa, de alvoroço. Era casado... Não. Não era casado?! Mais de trinta anos, ainda solteiro?! Será que nunca consegui fisgar o coração de uma mulher amável, virtuosa, digna e respeitosa?! Tem pelo menos um herdeiro, uma semente para dar prosseguimento ao processo de ramificação da árvore genealógica aqui na Terra. Também não tem filho?! Poucos deles pensarão que eu aprazerava só de amante em amante, ou na casa da má fama, mas, na grande maioria, machistas discriminantes, logo de cara, que não é de se estranhar, pensarão: “Esse sujeito mordia a fronha, portanto, não era chegado à fruta mulherística!”
Pode ser que aconteça não que eu queira, mas, no auge da comoção fúnebre, naquele momento crucial de despedida, antes de minha partida da Matriz de Nossa Senhora da Conceição rumo ao bairro de Santa Cruz, a mulher que eu tanto amo, verdadeiramente, e que jamais fui correspondido, toda descabelada, lavada em prantos e em remorsos, debruçará sobre a minha matéria inerte, jurará para mim fidelidade e eterno amor. Eu, ali, naufragado no fundo de meu paletó de madeira, com o desejo ainda meio morno, em vão, inutilmente farei um tremendo esforço para tocá-la por inteira pela primeira e derradeira vez com todos os meus nervos rígidos. Cúmplice, sabedora e principalmente medidora de minha intensidade amorosa que sinto por essa mulher que por muito tempo relutei arduamente com os seus “nãos,” e que por ela jamais fui capaz de perder as estribeiras nalgum xingamento final, fazendo uso dos palavrões mais cabeludos possíveis, sentada no imenso salão da claridade, (espero eu), sossegada, minh’alma suspirará e balbuciará nos silêncios, consigo mesma: infinitamente, como o amor verdadeiro é verdadeiramente paciente... !
Damião Cordeiro, o poeta do acaso e de chão e raiz...
O sucesso do grupo Alma Sertaneja chega a Hollywood, na criação de Délio Pinheiro posted by DÉLIO PINHEIRO at 4:10 PM
Era 10 de Dezembro de 1978, um domingo quente, as terras da redondeza, bem molhadas, o maxixe começara a esboçar sua farta produção. Uma leva era verde mais escuro, vingados nas encostas dos monturos, os mais desnutridos e amarelados, vinham dos estercos deixados pela boiada nas beiras dos caminhos. O rio jorrava nas pedras lisas água avermelhada por causa da chuvarada no Talhado. A esperança de comprar a bicicleta exposta nas lojas da cidade vizinha começava a fluir nos olhos dos meninos da urbe, de acordo, viçava o algodoeiro nas propriedades de terra avermelhada. Da serra do lado do nascente, descia junto com as águas do rio Mosquito, dezenas de homens pobres, mal vestidos, de sandálias recortadas em pneu de caminhonete e amarradas com tiras de couro cru, desciam à procura de trabalho braçal nas lavouras de algodão. À tardezinha no Comércio da Rua de Baixo da comunidade do Jatobá, o camponês capataz da Fazenda Casa Velha, trazia para o botequim Nery de Nelson, lotado de pinga geraiseira, os trabalhadores para receber os dias trabalhados debaixo das intempéries. Ora sol, ora chuva. Esse camponês franzino, cabelos pretos e lisos, barba feita e bigode aparado, olhos bem azuis e um ar de amizade lhe rondava a cara surrada de sol. Homem honesto até debaixo dágua, trabalhador, pai de família, cumpridor dos seus deveres, que jogava um truco e tomava umas pingas raliadas depois da novena de domingo. Trazia consigo o filho varão, moleque inteligente, cantador, voz fina como um sagüi e sabia tudo de moda campeira, pele branca como goma do Gerais, olhos também azuis, olhar serelepe, prestava atenção nas coisas e principalmente nas pessoas, pois é nas pessoas que segregam os ímpetos de amores e de ódios.
Naquela tarde de domingo, bem zulêgo, de tanto abusar da marvada, um cabra que jogava sinuca no botequim abordou o filho do capaz da Fazenda Casa Velha e lhe pediu uma pinga. O menor, que nada entendia de bebedeira devolveu-lhe um “não”, e o bêbado jogador de sinuca o empurrou contra a parede lhe machucando a cabeça. O menino, seguidor da decência, da coerência e do respeito, colhido das pregações do pai, corou a maçã do rosto e não concordou com tal grosseria, indefeso, começou um choro. Indagado pelo pai, o garoto declarou ser agredido... Da bainha o camponês franzino, cabelos lisos, barba feita e bigode aparado... desencapou em ira de Caim uma faca afiada à navalha, faca dessas de cortar fumo de rolo, palha e de tirar espinho de jurema. Da botina do outro, saltou um punhal de gumes azulados de resíduos do metal. Travaram-se uma discussão horrorosa. (A honra se lavava com sangue naquele lugar). Então o convite para sair pro tempo ecoou pelas paredes do botequim e o dono, Nery de Nelson, arregalou os olhos gritando aos rusgentos: pára com isso homi! Aí, não faltou a turma do deixa disso, um dominou o camponês franzino. A faca brilhava nos ares. A faca desenhava a morte nos ares. Um outro, segurava o punhal, junto dele, a mão do jogador de sinuca que tomado pela ira bradava aos quatro cantos: pula’qui se tu é homi! Das vielas e ruas estreitas de terra vinha correndo gente aos montes quando correra a notícia que a briga estava armada. Para abrandar o ódio matador do jogador de sinuca, chamaram a mãe dele. Essa chegou para falar com filho. Chegou já aos prantos! Trazia consigo um bote de café cometa de 1kg e uma dúzia e meia de ovos caipira. Nisso, o filho jogador se desentendeu com a própria mãe e, ambos, rolaram no meio da rua fazendo uma grande e indigesta omelete. O camponês franzino petiz de olhos azuis olhava aquela cena e não entendia nada. Ora engraçada, ora espantosa... Aquele rolo ali no chão poeirento da avenida principal de Jatobá virou uma arena circense. Os espectadores puderam ver o desfecho do caso: uma faca, um punhal de aço desembainhado e 18 ovos quebrados...
Uma questã de décadas a fio.
Welton Nogueira, de alma sertaneja
29/09/2008 Exatamente hoje, faz cem anos que fisicamente morria o Bruxo de Cosme Velho, Machado de Assis.(1908). Nesse mesmo dia/ano fazia 118 dias que aflorava ROSA, João Guimarães. posted by DÉLIO PINHEIRO at 3:06 PM
Borbulha dubitação a bordo de uma
embarcação buliçosa, pagã, voluptuosa.
Nesta mesma inquietação navegam com
remos sempre atrás: delicadezas, cochichos,
insinuações, impulsos desgovernados,
seduções de mistérios, tibiezas e sutilezas.
Nada de imoralidade escandalosamente escancarada
ou velada pelo contato tato bento, bentinho.
Afinal, Capitu capitulou
ou foi intenção do narrador-instrumento-lenhador
em projetar-se num magnífico talho hemorrágico
de imagens várias somente para a nossa percepção amolar?!
Damião Cordeiro, o poeta do acaso
29/09/2008 Cem Machados!!!
Poesia de Délio Pinheiro no rosto enigmático posted by DÉLIO PINHEIRO at 3:02 PM
NA “RUA” DO ALGODOEIRO EM FILA, MEIO BICUDO, COMO QUEM NÃO TÁ NADA CONTENTE
DE MANHÃ NA FILA DO EITO
TOMAVA CAFÉ SEM PÃO MEIO ENFILEIRADO FILHO ENTRE FILHO. CAFÉ PRETO. SÓ COM O PÓ.
O MEU PAI OLHA A FILA E FITA. UM SONHO ATRÁS DO OUTRO. UMA INCERTEZA ATRÁS DA OUTRA, INFILEIRADAS...
ENFILEIREI MEUS SONHOS E PEGUEI UMA FILA DE ÔNIBUS
RUMO A CIDADE DAS FILAS. EU NEM SABIA QUE A URBE FILARIA MINHA IMAGINAÇÃO...
HOJE PEGO FILAS “CASTÉLLICAS”
PRA CONTRIBUIR
SONHANDO EVITAR A MAIS FAMOSA E TRÁGICA DO INSS.
UMA PARREIRA, FOLHAS VERDES NUM PÉ DE XUXU.
TRÊS COVAS DE ABOBREIRA, MEIA HECTARE DE ANDU.
UM PEDAÇO DE PLANTA DE MILHO, CABAÇA COM CORDA E IMBIRUÇU.
FLORES NA AROEIRA NOVAS PENUGENS NO PÉ DE IMBU
UM SABIÁ NA LARANJEIRA, NO NINHO DE GALINHA, UM BAITA TEIÚ.
NA SALA UM CHICOTE PENDURADO, DO LADO UM RABO DE TATU.
CHOCALHO DE CASCAVEL, PRESA DE URUTU.
NO PÉ DE SOMBRINHÃO PRETO E BRANCO FESTA DE ANU
PERTO DA CAIXA DÁGUA MELANCIA DA PRAIA E FLORES DE MACAPU
CHOVE E JÁ, JÁ, TEM SEMENTE NO CARIRU.
NA BAIXADA OVOS ARROXEADOS VIGIA O INHAMBU
ALI PERTO DO CANAFISTULA UM GALO, UMA GALINHA, UMA MAÇAROCA.
NA LATADA FEITA PARA MARACUJÁ UMA ROLA PEDREZ CHOCA
NO RIACHO NO FUNDO DE CASA BAGRE GRANDE NA LOCA
UM PÉ DE GENIPAPO ENTRE O RIOZINHO E A HORTA
DENTRO DO CERCADO CONTRA BODE UNS PÉS DE MANDIOCA
PRÁ EVITAR EROSÃO EU PLANTEI NA BEIRA DO RIO UNS PÉ DE TABOCA
A ÁGUA ESCOA DO SERRADO MOLHA MEU FEIJÃO CARIOCA
DE NOITE FUMAÇA DE BOSTA DE VACA ESPANTO MURIÇOCA
PRA MOER CANA EU ENCOMENDEI PRA JANEIRO UMA ENGENHOCA
CAFÉ, ARROZ, CANJICA, TUDO NO PILÃO NÓS SOCA.
PEGO PIAU PRO ALMOÇO, ORA MILHO, ORA MINHOCA.
É ASSIM A MINHA LIDA PROS LADOS DA LAGOA
ESCUTO A EDUCADORA SE AS FM NÃO TIVEREM MUITO BOA.
ALMOÇO NA PANELA DE FERRO CARNE MOCIÇA DE LEITOA
DE BEBER LEITE COM NATA PURA, DIFICILMENTE A GENTE ENJOA.
UM DIA BOLO DE FUBÁ, OUTRO DIA ROSCA E BROA.
GUARDO FEIJÃO GORUTUBA, ABÓBORA JACARÉ, POIS A SECA NÃO PERDOA.
VC NÃO SABE, MAS PRA MANTER O HUMOR MUITAS VEIZ A GENTE “SOA”
FAÇO DE CONTA QUE A VIDA É FÁCIL SE OS PROBLEMAS AMONTOA
INDA TEM AQUELES QUE ACHAM QUE VIVEMOS TUDO À-TOA.
TAMO TÃO ACOSTUMADO QUE ESSAS COISAS NEM MAGOA
VEM MORA AQUI PRA VC VER COM QUANTOS PAUS SE FAZ UMA CANOA!
Welton Nogueira em 22/09/2008 posted by DÉLIO PINHEIRO at 4:50 PM
Alembrei de Sr. Nogueira em “Missa do Galo” 12-05-1894 Aespois da gazula vem a maçã... e dela me frutifico para tecer arguns causos, que, pegaram numas madornas, mas, aqui, afloram vivamente...
Eu não nasci ontem de tarde; como diz Leonídia da Lagoa. Sou um contadô de causo, mas o fim desta história não conto não. No ano da revolta,1926, eu já era um frangote que caçava um toco para mijar detrás. Eu não era fazedor de fuá e nem arrotava valentia, mas de jeito nenhum eu não apartava de uma viana. Saí da fase de fazer boizinhos com cocos de melancia. Ser marchante esta era minha fruia, um ofício tão sonhado que nunca dizuri por esperar. Eu também não dizuri de sonhar com o coito mulherístico. Naquele tempo até muié era custoso. Muito custoso.
Morava nós num rancho de pindoba cravejado numa grogota de pedra bem nas barrancas do Mosquito. O patrimozin mais perto, Budega, ficava retirado umas duas léguas e meia. A gente ia lá no meio da semana só se caso precisasse comprar um bote de vela ou um bote de café ou outras miudezas, como: uma meiota de cachaça, criosena, linha, fósco, sal, tintol. Nós era fraco. Só comprava a retai. Me alembro cuma hoje, Seuédno assentava as mercadorias retiradas numa antiga caderneta roída pelo tempo cupinoso. Tinha ano que nosso pai, o Zé Taioba, vendia o argudão na fôia para encurtar pelo menos um terço do grande rosário da dívida. (Eram contas que não acabavam mais!). Se não tivesse grande precisão a gente só ia na corrutela aos sábados para fazer a feira e às vezes aos domingos para ouvir a prédica de num padre enrolador de língua cujo nome era: Julião Arroio Gallo, que quando ia dizer a missa gugunava esquisitices e ficava de costa para os fiéis. (Nos anos quarenta, numa roda de batizado, esse mensageiro celestial matou com uma coiçada fatal um pobre cachorro que só sabia latir). Ninguém sabia indagar os porquês de nossos infernos. O falatório do padre nós não entendia não. A gente só respostava: Orai por nobis, “tende piedade de nós” e Aamém! Arre! Naquela lonjura de sertão Deus também não entendia nós não. Era tanta da miséria...!
Morava nós lá naquele ermo de sertão. A nossa mãe era Orlinda, uma viúva acolhedora que nem galinha de pinto. Ela tinha dibaração para aluir qualquer qualidade de serviço. Nossa mãe fez as vezes de pai também. Esse, que por causa de um bonito cacho acabou espetado em ferros antes de mesmo de trintar. Foi uma morte horrível, se é que existe morte bonita.Nunca vi. A fatagem de meu pai foi vomitada para fora quando a ponta da ferramenta apontou no alto da cacunda dele. O marido da traidora não era manso, não. Sem disse-me-disse apunhalou-o pela frente. Nosso pai, deixou a deus-dará uma renca de barrigudinhos. Avalença que nós tinha muita força para o trabalho. Trabalhava muito trabalhava. E como nós trabalhava. Iãntes mesmo do galo acabar de amuidar a cantoria, do capote de nuvem descoroar a crista da serra e do aruvai cair das ramas, já tava nós lá no batente briquitando no eito da vida. Às vezes a gente nem precisava dar a segunda limpa no roçado, pois, o feijoal viçoso e bem ramiado já ficava assim, pinhadinho de canivete. Nós corria e já preparava os cambões. Um cambão para cada par de braços.
Naquele tempo não adiantava condongar. Ninguém tinha destreza para cascar na aragem para procurar recurso mió, não. A vida era dura ali naquele fim de mundo. Era trabalhar e trabalhar para não cair guenzo de fome.
No continente em que foi apagado Lampião e toda sua colundria com um pouco de recurso que fui arrebanhando durante anos fiquei marchante.
Certa ocasião me deu uma sapituca, sem anunciar, resolvi fazer uma viagem esticada, bem pra lá das bandas do Casca-Fino. Mais precisamente na fazenda São Saruê. Fui lá avaloar a novilha Estrela de meu cumpade Quelementão, um comprador e vendedor de gado - vaquejador em distâncias muitas – sujeito esse sistemático que por um negocim de nada já coçava o cabo da faca. Ele também não largava de uma viana bem servida, mas, amiúde, apartava de seu ninho matrimonial e demorava fazer regresso. Cumpade Quelementão nunca foi amante do floreio, da conversa sem comprimento e sem largura, não. Era crespo mesmo. Compadre Quelementão não morria de amores pela senhora dona patroa dele, mas, para lavar sua honra, o ódio poderia nascer de dentro da bainha de couro e furar feito chifre de boi enfezado por demais. Desleixado, ele custava fazer um agrado na senhora dona patroa dele. E, ela ali ó, naquela precisão de ser tocada, amaciada em avassaladores arrepios arrebatadores...
Então, como fui sem fazer combinação, cumpade não me aguardava. Chegando lá, fiquei, assim, meio cabreiro lá no meio do terreiro da varanda matutando no meu cumpade sistemático. Apeei. Nem fui avaloar Estrela. De longe já avistei ela lá chiqueirada sem brilho nenhum. Só tava o ganzepe. Um cornicho véi. Não dava sequer uma manta de carne-de-dois-pêlos.
Cumade Ceição veio muito pornossa, toda lebardeira. Falava pelos cotovelos, assim, toda riguilida. Fez boca de rir com aqueles trejeitos insinuantes, provocadores. Deu quinau para Ceição, cumade minha, me convencer adentrar para um dedim de prosa, mas tão logo que adentrei, assim, cauteloso com um olho na estrada e... ... ... ...
o outro... Samiado, mais depressa que rapidamente, esqueci do trupelo que foi a alvoroçosa viagem de meu pai...
01/06/2007 às 19 h 41 PUC-SP Damião Cordeiro, o poeta do acaso.... posted by DÉLIO PINHEIRO at 8:56 PM
REOBOTE “Água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo...
Jipe na estrada e o coração lá!” FAZENDA - Nelson Ângelo
Compramos um terreno com um amigo-sócio, um chegado. O terreno fica retirado uns 110 km de Montes Claros. São 150 hectares de cerrado. Quase todos os finais de semanas vamos para lá. É uma casinha de roça até legal, só que estava abandonada. Estamos fazendo algumas coisinhas para transformá-la em habitável. O lugar é denominado: fazenda. Já descobrimos o porquê desse batismo. É porque nunca pára de fazer alguma coisa...
Lá, terra de gerais, tem muitos carrapatos-estrelas esses minúsculos “ridulêros” que garram na gente, se a gente não passar repelente. Estamos tentando acabar com eles. Lá, também tem muito bicho do mato: dizem que tem onça, tatu, jaguatirica, suçuarana, jaratataca, cotia, paca, ganso selvagem, jacus, papagaios (tem uns acasalando lá pirtim, a um “ispicho” de beiço), tem pica-pau-de-cabeça-vermelha... Dizem que até lobo guará passa por lá. Lá, é um lugar meio isolado do mundo. Lá, tem um riozinho que em pleno meio dia queima os pés de tanto frio que é. Acho que vamos criar truta arco-íris por lá.
Neste final de semana foi uma cantoria de gansos selvagens, (só ouvimos o barulho, o capataz, que é do lugar, disse ser os tais gansos), pois, próximo da primavera chega a época de acasalamento.
Nossos pais irão lá pro terreno no próximo final de semana. Um dia, quem sabe, a gente passa um final de semana por lá... Não deve ser coisa grande não... Isso é coisa de caipira encabulado com sua rocinha, com sua matutage...
De amanhã e de tarde a passarada faz a festa. Ah! as seriemas comem ração no quintal. Lá, tem nhambu, asa branca, gaviões e carcarás. No final de semana passado presenciamos um casal de gavião atacando uma nhambu e fazer a festa. Deu até vontade de tomar a ave para fazer um assado. Pedro Lucas ficou um pouco cismado com a violenta imagem, mas, expliquei para ele que a natureza do bicho-bicho é que nem do homem-bicho, só que sem a luz espinhosa da consciência lúcida, e outra, o bicho-bicho não carece carregar a chumbosa culpa do pecado, não.
Eurisvan Cordeiro, Montes Claros – Minas de gerais!
NOTA: Reobote significa: "O Senhor me deu este lugar e aqui prosperaremos".
Poema visual de Délio Pinheiro posted by DÉLIO PINHEIRO at 8:53 PM
ADESPOIS DE TANTO AMOR,
DE TANTO BEJO GOSTOSO
E TANTO CHERO CHEROSO, NÓS BRIGUEMO.
BRIGUEMO COMO SE DEVE DE BRIGÁ
E NA DISPIDIDA NEM SE OLHEMO E XINGUEMO,
XINGUEMO COMO SE DEVE DE XINGÁ.
EU TE ODEIO, EU TE DESPREZO,
BABA DE CURURU, MANDINGA DE SAPO SECO!
EU NUNCA MAIS QUERO TE VÊ,
MAS NEM PINTADA DE CARVÃO
NO FUNDO DO MEU QUINTÁ.
E SE ARGUM DIA, DEUS ME LIVRE
SE ARGUM DIA CONTIGO EU SONHÁ,
EU ACORDO E FAÇO TRÊS CRUIZ,
É CRUIZ É CRUIZ E É CRUIZ.
O BRASIL É BEM GRANDE DÁ BEM PRA NÓIS SEPARÁ,
VOCÊ VAI PRO NORTE QUE EU VOU LÁ PRO SUL...
MAS UM DIA, EU ME ALEMBRO QUE UM DIA
NÓS SE ENCONTREMO E NINGUÉM TENTOU DISFARÇÁ
EU PARTI PRA RIBA DELA COM UM FOGO ACESO NO OIÁ,
E ELA ME DEU UM ARROXO
QUE SE EU FOSSE UM CABRA FROUXO
EU TAVA AQUI EM DOIS PEDAÇO.
E FOI TANTO CHERO CHEROSO,
E FOI TANTO BEJO GOSTOSO
QUE NÓS PAREMO E SE ALEMBREMO:
O BRASIL É MUITO PEQUENO
E NUM DÁ PRA NÓS SEPARÁ... posted by DÉLIO PINHEIRO at 12:13 PM
“Dois olhos é luxo!” – Bem assim, seo Valério Egídio, sempre dizia, esse velho vaqueiro destemido da comunidade de Lagoa, que, inrriba de um lombo de animal esbanjava uma destreza descomunal. Nunca caiu do cavalo. Nunca deu com os burros n’água e nunca sequer deixou boi na arribada. Por mais que o bicho fosse parrudo e valente, seo Valério Egídio trazia-o na unha. As mais aventurosas topadas com touro desse porte foram registradas em pisquins floreados de destemores e de glórias.
“Dois olhos é luxo!”; prova disto é que para fazer uma mira bem certeira carece fechar um dos olhos.
Seo Valério Egídio ficou defeituoso de uma das vistas em 1907, quando ele tinha apenas cinco aninhos. A má hora chuchou-o numa ponta de pau chanfrado de um velho paiol de milho lá pras bandas de Furado do Peixe. Sozinho, ali, o coitadim ficou dependurado pelo olho espetado por um tempão. O olho dele perdeu o viço, a sustança do líquido, a luz...
Certa ocasião, pra bem mais adiante, embrenhado mata adentro com o sobrinho, Sérgio Lucas do Paraguá, ao encontrar uma ninhada de papagaio no fundo de um oco de uma erada imburana, o seo Valério, jocosamente, com o companheiro brincou: “Veja menino, eu não careço de fechar um dos olhos para encompridar mais a vista e avultar mais a enxergância inrriba dos bichim lá no fundo do oco, não...”
Esse grande vaqueiro, cego de um olho, contava uma passagem por demais, interessante. Contava ele, que, certa vez, estava ele enforquilhado num cavalo cego de um olho, campeando um boi também cego de um olho e que pertencia a um fazendeiro, que, por coincidência, ou não, representava o mesmo defeito. O boi, ao atravessar a rodagem foi atropelado por um caminhão. Não se sabe se o motorista tinha também problema de vista, ou não, mas, o que se soube, é que, na pancada, o caminhão ficou com um dos faróis quebrado, dando assim, luz ao quinto “cego de um olho” numa mesma história...
Esta é uma das histórias de vaquejada do Norte de Minas.
Oscarino Aguiar Cordeiro, o Poeta do Sertão posted by DÉLIO PINHEIRO at 12:12 PM
“ Diz que sou feia,
Quero ver sua formosura
Cara de feijão queimado
Temperado sem gordura.
Diz que sou feia,
Eu não sou tão feia assim,
Passei na sua casa
E peguei feiúra ni mim...”
“Comprei chita fina
Pra belas meninas,
Comprei chita grossa
Pra muié da roça,
Cabelo preto penteado pra trás,
Engana os véi, fora os rapaz...
Olhos pretos, sobrancelha de veludo,
O carinho dessa roxa
Que mata tudo.
Amanhã muito cedo
Vou à um batizado,
Na casa de Rosa
E de Pedro meu cunhado...!”
“Adeus bela engraçada morena
Tua alma fugindo de dor
Recordando os tempos já passados
Quando eu tinha o meu primeiro amor...
Levantei de madrugada
Eu vi a estrela lira passar
Recordando os tempos já passados,
Vi dois amores quando vão se ausentar...
Da roseira que nasce um espinho,
Linda rosa ela em botão,
Da mulher nasce a firmeza
E do homem toda ingratidão...
Meus olhos têm razão de chorar
Por tanta lágrimas
Eu nunca de vejo,
Adeus meu anjo querido
Eu te amarrei até morrer...
Sempre viva, te amarrei até morrer...!”
“Correios dos Namorados”
Fragmentos de versos extraídos em Barreiro das Lages por Damião Cordeiro
1926, O ANO DA REVOLTA
Muitas pessoas humildes brotam na caatinga, andam a esmo, falam a esmo. Pouco sabem do tempo e do espaço por onde circulam a mercê na história, mesmo assim, fazem história como ninguém. Muitas delas não sabem do dia, mês e ano de seu nascimento, apenas dizem:nasci no ano da revolta...
A “Revolta” não foi nada menos que a Coluna Prestes iniciada por Isidoro Dias em São Paulo, (1924). Nos mapas que registram a andança do “Cavalheiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, aparece o povoado de Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas. Há quem diga que os revoltosos desceram pelo Talhado e também pelo Brejo, ali, nas proximidades do Picão do Sanharol. Acredito que “os revoltosos” que aqui passaram não tinham nenhum ideal político, apenas foram baderneiros, arengueiros que aproveitaram da ocasião para “aprontar” por essas quebradas de nosso sertão!
VERSOS “A revolta apareceu
No dia 03/04/26,
Andava que nem
Maribondo verdadeiro,
Atrás de burro bom,
Muié bunita
E de dinheiro...
Os revoltosos quando veio
Não levou até famia
Mais os próprio marido
Jurava que as muié ia,
Primeiro veio a puliça baiana
E depois a cavalaria...
Pedrolino entrou na réstia
Foi tomando o causo em graça,
Não enfrenta bandido
Pois não é copo de cachaça,
O medo de Pedrolino
Fez ele obrar na calça...”
Nota: Pedrolino era um “Quincas Berro D’água” – um cachaceiro de Porteirinha que fez “necessidades” na calça ao ver a “puliça baiana”, “a cavalaria”, enfim: os revoltosos...
Trecho de uma décima composta por Santo Preto -1926, um exímio cantadô de côco do Boqueirão, Porteirinha-MG. Texto extraído por Damião Cordeiro, intermediado pela rezadeira dona Bela de Lau (10-12-1911 -2008) - Comunidade de Paraguai -
Mais um pouco de Rosa, com flores do Talhado posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:37 PM
Sou um caboclo nato
Sem luxo nem vaidade
Quem olha assim pro meu traje
E me julga sem saber
Merece até compaixão
Pois desconhece a verdade
Meu lugar é um encanto
Meus dias são só de alegria
Inda tenho uma cabocla amada
Que é uma doce companhia
Meu terreno é bem pequeno
Mas eu acho uma belezura
A vazante é uma riqueza
Tudo que planto
Colho com fartura
A oeste o limite é a serra
Não fiz cerca pois é um paredão
Lá em cima nasce um rio
Que desce e irriga o sertão
Norte e sul separei por cerca
Confinantes são todos do bem
Lá a leste o limite é o rio
Passa o rio, há amigos também
Este rio é aquele mesmo
Que nasceu lá a oeste
Sinuoso como serpente
As minhas terras enriquece
O meu gado pasta livre
Mata a sede na nascente
Do leite tiro manteiga
Faço queijo e requeijão
Vou à cidade só pra vender
Depois volto pro rincão
Chegando lá abraço a cabocla
Que sorridente vem me receber
Então, paro, matuto e arremato:
eu sou um afortunado
Só insensato pra não perceber
Todas as noites quando anoitece
Na varanda a gente namora,
A lua completa o cenário: o caipira,
a cabocla, o amor e a viola.
FIRME E FORTE NO MESMO LUGAR: O SERTÃO
Ah! Quanta saudade dos meus tempos de criança,
Do luar e das estrelas e das noites de festança!
Dentro da minha mente
Coisas que não acontecem mais.
Um filme fica a rolar,
Pena que o tempo não volta atrás!
Pessoas que muito amamos, entes queridos, que se vão,
Tudo é tão passageiro, eu me ponho a pensar!
Somente o meu sertão, firme e forte no mesmo lugar!
Até a encantadora velha casa de farinha
Que o bulinete não parava na mandioca bolinar,
Coitada, não agüentou, esfarinhou-se.
Um dia também hei de me esfarinhar por inteira,
Inteiro, fica somente o meu sertão, forte e firme no mesmo lugar!
Como a vida é mesmo assim, não tenho nada a reclamar
Carrego sempre comigo a forte lembrança do meu sertão
Até na hora da morte cravada em meu coração
E que as pessoas queridas possam também concordar
Mais um ente que se foi e o sertão como sempre
Firme e forte no mesmo lugar!
Dentro da minha mente
Imagem forte não se apagará jamais,
Essa, do meu ser tão minhas Minas Gerais!
Da serranopolitana Linda Marcelle Cordeiro, letrista de “Ser Caipira de Verdade” - presença marcante no DVD do ALMA SERTANEJA
Barueri - SP 03/06/2007
Árvore seca, mas ainda assim bela posted by DÉLIO PINHEIRO at 1:31 PM